“Vou pra selva e talvez não volte”, escreveu recruta

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Weslley, de 18 anos, que morreu afogado na segunda-feira, mandou mensagem à tia dizendo que temia morrer

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Weslley era retraído desde a morte da mãe, quando ele tinha sete anos/Fotos: Facebook

Weslley dos Santos, de 18 anos, recruta que morreu por afogamento na segunda-feira, 24/4, durante treinamento militar no Grupo Bandeirante, quartel do Exército que fica no Jardim Belval, mandou uma mensagem para a mãe adotiva cinco dias antes afirmando que achava que não voltaria vivo do exercício. Weslley foi sepultado na tarde desta terça-feira, 25/4,no cemitério de Barueri. Além dele, morreram na instrução os soldados Jonathan Cardoso e Vitor Costa Ferreira, ambos de 18 anos também.

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Weslley não sabia nadar, mas segundo comunicado do Exército, não havia previsão de que os recrutas entrassem no lago. Em grupos de quatro, eles fariam um treinamento de localização na mata em que recebem um mapa e têm que percorrer um trajeto utilizando uma bússola. “Por algum motivo, uma dessas equipes caiu ou entrou no lago e infelizmente três militares vieram a se afogar”, explicou o coronel Igor Boechat, da área de comunicação social do Exército.

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O soldado no dia da formatura do ensino médio, em 2014

Um dos quatro recrutas conseguiu sair da água e chamou socorro. “Agora, ele poderá ajudar nas investigações sobre as causas do episódio”, disse o coronel. Os rapazes sofreram várias paradas cardiorrespiratórias e os médicos e socorristas tentaram reanimá-los por cerca de 20 minutos, mas não foi possível salvá-los.

Weslley era órfão desde os sete anos, quando sua mãe morreu assassinada num assalto, em São Paulo. A partir dai, foi criado por duas tias, Daniela Brito Santos, com quem viveu a maior parte do tempo na Lapa, na capital, e Luciana da Hora dos Santos, que obteve sua guarda e morava no Jardim Belval.

Ele é descrito como um jovem introspectivo, que passava a maior parte do tempo em casa. “Desde a morte da mãe, ele se fechou muito”, explica Luciana. Sua rotina só era quebrada quando participava de provas de rua com a outra tia, Daniela. “Ele gostava de correr, fazia meias maratonas, tinha medalhas”, lembra ela.

Durante o processo de alistamento, o rapaz dizia que não queria servir o Exército e até escreveu isso no questionário. Ele não tinha pai nem mãe e, por isso, acreditava que seria dispensado, mas acabou recebendo a convocação. Como estava desempregado, achou que poderia ser uma opção temporária.

No começo da atividade no quartel, há dois meses, reclamou muito do rigor da vida militar, mas foi se acostumando e, com o tempo, mudou de ideia. Como já tinha carteira de motorista, estava fazendo curso de direção de veículos militares e tinha decidido tentar a carreira no Exército, pois pensava em casar-se em breve com a namorada.

Mensagem premonitória

Cinco dias antes de morrer, Weslley enviou uma mensagem por Whatsapp para a tia Luciana, sua mãe de criação. Nela, o jovem informava sobre a atividade na mata e relatava o temor que sentia com o treinamento. “Segunda vou pra selva e possa ser que não sobrevivo lá, talvez vou pra não voltar” afirmou na mensagem.

“Já falaram que é pra eu deixar o telefone de alguém da família no bolso, pra avisar se o guerreiro acabar falecendo.” Mas ele termina num ar otimista. “Mas caso eu voltar, vai ser minha formatura na sexta, entrega da boina”, conta. “Então alguém da família vai ter que colocar em mim, espero que se entendam aí”, brinca, referindo-se as duas tias que o criaram.

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