Sobre 2017: o que espero…

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Vinda de grandes vitórias e mortalmente amputada em 2016, a esperança de Siméia levanta a cabeça e sorri para 2017

Apaixonada por livros desde muito nova, aspira a escrita como forma de emancipação. Seu amor pelos livros a levou diretamente para a área da educação e em direção aos livros. Hoje, é revisora e professora e, sempre que possível, adora discutir sobre a vida e suas complexidades. Negra e mulher, há um bom tempo vem discutindo as inúmeras formas de opressão, buscando sempre modos de superação e emancipação. Tem uma relação muito próxima com a cidade de Barueri onde cresceu e partilhou infância e boa parte de sua vida adulta.
Apaixonada por livros desde muito nova, aspira a escrita como forma de emancipação. Seu amor pelos livros a levou diretamente para a área da educação e em direção aos livros. Hoje, é revisora e professora e, sempre que possível, adora discutir sobre a vida e suas complexidades. Negra e mulher, há um bom tempo vem discutindo as inúmeras formas de opressão, buscando sempre modos de superação e emancipação. Tem uma relação muito próxima com a cidade de Barueri onde cresceu e partilhou infância e boa parte de sua vida adulta.

Ainda adolescente, vivendo em Barueri, me lembro da história de um jovem que foi brutalmente espancado até a morte com a justificativa de ser gay. Me lembro do choque que senti, a perplexidade que me tomou por saber que alguém pudesse morrer por ser gay. E o pior, a letargia, o silêncio quase conivente das pessoas.

Cresci em uma escola em que a discussão da história oficial não era nem pensada. Li sobre como os europeus, bravos e valentes, dominaram o mundo, impondo sua língua, sua cultura e sua “civilidade” aos povos bárbaros e selvagens. Ninguém me explicou que a construção do Brasil perpassava por espoliação, pelo branqueamento e apagamento das contribuições de negros e indígenas, partes constituintes da sociedade brasileira.

Apesar de ter uma mãe feminista, o que muito me orgulha – mesmo ela não sabendo, é em sua essência –, cresci ouvindo sobre o lugar da mulher, sobre como devíamos esperar pelos homens de nossas vidas, vivendo vidas secundárias até que eles, nossos machos, aparecessem em cavalos alados, ou nem tanto, para nos libertarem do perigo de sermos sós, como se ser mulher e só não fosse possível.

Então, eu vi a mudança, participei, sou parte dela. Sou uma mulher negra que ousou ser mais do que a sociedade me designou, fiz escolhas. Sou resultado da contestação, da inconformidade, do levante.

Vejo as minorias de repente gritando por justiça. Contestando o status quo, querendo ser ouvidas, querendo espaço, respeito, querendo viver, viver dignamente, viver sem medo de ser espancado até a morte porque saiu de mão dadas com o namorado; querendo ser livre e só porque ela pode, porque ela não precisa de um certificado masculino autorizando-a a ser no mundo; porque gênero é uma construção social e pode sim ser contestado; porque o racismo mata, fere e tira de uma boa parte da população brasileira os seus direitos básicos, e não estamos mais a fim de aceitar isso.

Eis a revolução. Ela é pontual, ainda pequena para o tamanho da injustiça chamada Brasil, mas ela vem andando, vem se alargando… E de repente temos um deputado federal declaradamente gay, temos negros e indígenas tomando as universidades públicas, contestando seus lugares na história, mulheres resolutas e protagonistas de suas histórias, fazendo caminhos tão diferentes das receitas de propaganda de sabão em pó, pessoas discutindo gênero além de seus corpos, além do binário.

Então chegamos a 2016, um ano bastante complexo e difícil de digerir, um ano em que vimos o País retroceder de uma forma tão absurda que ainda estamos tentando entender de onde veio e como veio o tiro que nos tirou a esperança de viver em um Brasil menos desigual, menos desumano, menos exclusivo.

De repente, vimos o País ser tomado por uma horda conservadora, que parecia coisa do passado, resultado de uma história mal resolvida, mal contada, não refletida, se revirando, tomando força e iniciando uma luta por mais e mais espaços de poder, contestando cada pequena vitória dos que sempre estiveram na outra margem, dos famintos por justiça, daqueles que foram e vêm sendo espoliados de sua dignidade em um País organizado por poucos, pensado para poucos e apropriado por poucos.

E é então aqui que minha reflexão encontra o ontem e hoje, é onde minha voz faz eco!

O mundo anda estranho, parece que dormimos e acordamos alguns séculos atrás, eu sei.

Todas as vezes que abrimos os jornais ou mesmo nas redes sociais, o pessimismo nos toma de uma forma que nos paralisa, nos desanima, eu sei.

Mas há uma revolução acontecendo e toda essa horda conservadora só nos diz como alteramos, como tocamos, ainda que sutilmente, em pontos e lugares importantes.

O medo e o ódio conservadores são só o resultado de quem sempre esteve no topo dos privilégios e de repente se sentiu ameaçado em ter de dividir lugares, espaços com quem não deveria estar lá, com quem deveria servir, se esconder, se apagar.

Mas nós não estamos mais nos mesmos lugares. E só a contestação já é parte do processo.

Nossa indignação é parte do processo. Nosso não conformismo já é parte do processo.

Portanto, sobre este ano, o ano de 2017, que não percamos os sonhos, que não nos amedrontemos com o retrocesso, que não nos calemos por apatia.

O processo só está se iniciando, meus caros, e precisamos que nossas vozes se tornem cada vez mais altas, cada vez mais fortes: uníssona!

Mas nunca intransigentes, intolerantes!!

E que a esperança vença o medo!

E que o afeto vença o ódio, seja este qual for, esteja onde estiver!

É o que espero para 2017!

E você?

 

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