Quando um “Fim” supera um recomeço

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Ingrid Teixeira, a partir de uma abordagem casual sobre poesias feitas num cárcere, trata do saldo cultural de uma sociedade elitista e excludente

Ingrid Teixeira BnR
Ingrid Teixeira, estudante e moradora de Barueri a vida toda, frequentadora dos (bons) espaços públicos, dividida entre amor e ódio pela cidade. Já que não se decide, o melhor é rir da situação, e pra isso tinha a página Barueri da Depressão, que até 2014 juntou 17 mil seguidores ao redor do deboche, fruto de sua visão crítica aos veículos de comunicação. Seu posicionamento à esquerda quase sempre a leva a ter um sorriso sarcástico e uma piada irracional para os momentos mais prosaicos da rotina

Dia desses, recentemente, estava eu sentada na mureta do vão do MASP fazendo nada, quando um homem me abordou. Geralmente, nessas ocasiões eu fujo de qualquer pessoa por achar que vão pedir algo que eu não tenho ou não quero dar. Mas este homem, de uns 45 anos no máximo, vinha vestido formalmente, carregando uma bolsa de couro. De cara já gostei da sua forma de falar comigo e sua barba muito bem feita. Educadamente,  me contou o motivo pela qual me abordava. Perguntou meu nome e se eu conhecia uma instituição chamada FUNAP, me explicou o trabalho dessa “Fundação de Amparo ao Preso” e me contou toda sua história. Seu nome era Paulo Milhan e ele era ex-presidiário.

Paulo quando era presidiário, escreveu uma poesia para uma mulher que ele amava mas não era correspondido. Graças a Funap, que promovia concursos de poesias internamente, a poesia de Paulo ficou muito popular, e mesmo ele se retirando do concurso da época e sofrendo castigo por sua rebeldia, outras poesias que ele escreveu também ficaram populares possibilitando que ele escrevesse um livro cheio delas, que agradava bastante os outros presos. Paulo falou que depois que saiu da penitenciária, o livro fez sucesso, de forma que entrevistas na TV e jornais foram concedidas por ele contando seu trabalho e trajetória.

Disse inclusive que tinha recebido um contato do ator Lazaro Ramos afim de adaptar o livro para um filme, e que o mesmo havia marcado um encontro com ele para tratar o assunto.
Aí, eu que estava boquiaberta, comecei a cair na real. Se o livro era tão bom mesmo como ele estava falando, porque raios Paulo Milhan estava abordando pessoas no vão do Masp para divulgar seu trabalho, e não estava numa Livraria Cultura dando autógrafos do seu livro?

Também recentemente, finalizei a leitura de um livro da Fernanda Torres chamado “Fim”. Um livro que no geral, é ruim. Não agrada, não convence, é fútil e embora bem escrito, me deu sono.
No lançamento do livro em 2013, puxa-sacos globais rasgaram elogios a este livro dela, que no final faz uma dedicatória que inclui um bom time de contribuintes da Rede Globo, e a própria Globo Filmes. Mas as críticas dos leitores comuns como eu, eram exatamente como a minha opinião pessoal sobre a obra.

Paulo Milhan terminou sua conversa comigo, me oferecendo um folhetim de sua poesia mais famosa, que deu origem ao livro, e dizendo que eu poderia pagar nela qualquer valor que quisesse. Ele estava juntando dinheiro para expor seu livro na Bienal Internacional do Livro de São Paulo que acontece este ano, no Pavilhão de Exposições do Anhembi e precisava de 4 mil reais. Não comprei sua poesia e ele se foi para abordar outra pessoa ao meu lado. Era um homem simples que lutava de todas as formas pelo seu sonho. Mas me lembrando dos comentários asquerosos de puxa-sacos da Fernanda Torres sobre seu livro, percebi comigo que aquele homem dificilmente seria tão afamado como ela era. E cá entre nós, sabemos que não é por causa de seu talento como escritora, uma vez que a opinião do público sobre seus livros não é a mesma da opinião daqueles cujos nomes vem na dedicatória, ou que por vínculo profissional, também opinaram a favor sobre Fim.

Mas é claro que sabemos que não ser filho da Fernanda Montenegro ou não trabalhar para a Globo, não serão nem de longe as únicas barreiras que Paulo Milhan vai encontrar para não ser tão famoso como Fernanda Torres. Um país cuja Educação é tratada com repressão policial violenta aos estudantes jamais dará o valor ideal para seus escritores e obras.

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