Prefeitura silencia sobre ações contra enchentes

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Administração municipal evita esclarecer sobre planejamento, prevenção e combate a inundações na cidade

Avenida 26 de Março, altura do Jardim São Pedro: “Não passa ano sem encher aqui”, diz comerciante

A prefeitura de Barueri prefere silenciar quando o assunto são as frequentes enchentes na cidade. Depois da grande cheia do dia 12 de janeiro, o Barueri na Rede recolheu as principais queixas e dúvidas da população e enviou à administração municipal, pedindo esclarecimentos, mas não obteve respostas nem explicações. Agora, após o nova inundação, o jornal voltou a recorrer à gestão pública, que novamente se negou a falar.

A primeira questão apresentada pelo BnR e não respondida era sobre qual é o diagnóstico técnico que a área de engenharia da prefeitura tem para a reiterada ocorrência de inundações. Essa análise é fundamental para definir um calendário de ações para combater as cheias. O site queria saber como a gestão trata o problema das enchentes frequentes sob o ponto de vista das responsabilidades da gestão do município.

Considerando que os alagamentos na cidade são recorrentes, e buscando informações sobre as estratégias do município para combatê-las, o BnR quis saber que macroprojeto de combate a enchentes há no município para o longo prazo, já que as inundações na cidade ocorrem há décadas, e que ações foram praticadas nos últimos anos. Também perguntou que obras a prefeitura tocou, está tocando ou prevê para isso, e quanto investiu em recursos no combate a enchentes nos últimos anos, mas a gestão municipal optou por não responder.

Vila do Sapo, região do Engenho Novo: moradores dizem que obra da prefeitura no Califórnia piorou situação

O tema mais frequente citado pelos baruerienses diante das inundações é o descarte de lixo, entulho e outros detritos pela população nas ruas. Isso, no entender dos moradores, seria a principal razão das inundações. Mas a prefeitura não quis explicar que medidas tem tomado para combater esse problema. O BnR perguntou se há estudos sobre o volume jogado nas ruas e qual é o impacto disso nas enchentes da cidade. No dia seguinte à primeira enchente do ano, o secretário municipal do Meio Ambiente, Marco Antonio de Oliveira, o Bidu, divulgou um vídeo em que cobrava melhor comportamento dos munícipes. Vereadores divulgaram nas redes sociais mensagens isentando o poder municipal de responsabilidade e alguns também transferiram a culpa para os moradores.

Mas a prefeitura se recusou a dizer se cumpre seu papel, ou seja, se são promovidas campanhas de orientação e educação sobre os riscos do descarte. O BnR perguntou que resultados têm sido obtidos no sentido de conscientizar os moradores. Ouvindo professores da rede pública, o site constatou que não existe um trabalho consistente de educação das crianças e adolescentes sobre o assunto. As ações são tímidas e esparsas.

Parque Viana: cheias se tornaram frequentes nos últimos anos

O site também quis saber que ações de prevenção e combate ao descarte têm sido feitas. Após a enchente de janeiro, a gestão divulgou um balanço do trabalho de limpeza de vias públicas em que afirma que no começo do ano vistoriou 48 mil bocas de lobo, de onde recolheu 41 toneladas de detritos. Num balanço de 2019, a administração afirma que retirou 330 toneladas de lixo das bocas de lobo ao longo do ano.

A legislação municipal prevê multa a quem promove descarte irregular, como forma de inibir a prática. O site perguntou para a administração se tem multado os infratores e qual foi o volume de multas aplicadas em 2019. Não teve resposta. Uma consulta a servidores da área mostrou que não há um trabalho permanente neste sentido. No site da prefeitura, em junho do ano passado foi publicada reportagem sobre um caminhão flagrado jogando restos de construção em uma área do Jardim Santa Cecília. O motorista foi multado em R$ 359,60 (o máximo são R$ 1.798, dobrando em caso de reincidência). De acordo com funcionários ouvidos, a ação foi uma exceção.

Nas duas enchentes deste ano, de 12 de janeiro e 10 de fevereiro, agentes políticos se apressaram em responsabilizar o volume excessivo de chuva pelas cheias. O BnR questionou essa afirmação, listando uma série de locais que enchem regularmente, como o terminal do Jardim Silveira; a Vila do Sapo, no Engenho Novo; a região do Tamboré, no entorno do shopping; o Jardim São Pedro; e avenida D. Pedro II, no centro, entre outras, independentemente do volume de precipitação. O site quis saber que ações a prefeitura tem tomado para atacar o problema das inundações nesses pontos.

Na região do Jardim Silveira, por exemplo, o alagamento de 12 de janeiro ocorreu no dia seguinte à conclusão da troca de tubos de escoamento da região central do bairro, mostrando que a iniciativa não surtiu nenhum resultado prático.

Placa no Silveira anuncia fim dos alagamentos. Local encheu um dia após fim da obra

Outro ponto que os moradores levantam com frequência é sobre a manutenção de córregos e rios tamponados, como o bulevar ou longos trechos no Jardim Belval e Jardim Silveira. Os baruerienses demonstram grande preocupação sobre o risco de as partes cobertas estarem acumulando detritos continuamente e diminuindo a vazão, o que poderia provocar transbordamentos.

Por isso, perguntam se existe previsão de vistorias técnicas e manutenção periódica dessas áreas subterrâneas, como por exemplo em toda a extensão do rio Barueri-Mirim, incluindo o bulevar central, e como são essas avaliações. A população pergunta também com que periodicidade as supostas vistorias são feitas, se têm sido retirados detritos desses pontos nos últimos anos e em que volume. Comerciantes que estão há muito tempo na região disseram ao BnR que nunca testemunharam trabalhos de análise de situação ou retirada de detritos do rio e alegam que nem existem meios de acesso.

Jardim Belval, nas proximidades com o museu Municipal: encontro do córrego Itaqui com rio Barueri-Mirim

Frequentemente, baruerienses atribuem as enchentes aos municípios por onde o Barueri-Mirim passa antes de entrar na cidade. O rio tem partes canalizadas em Jandira e Itapevi, e as duas prefeituras afirmam que regularmente realizam obras de limpeza no leito. “Em Barueri isso não é feito, porque está tudo fechado e não há como fazer”, disse ao BnR um comerciante da avenida Henriqueta Mendes Guerra, na altura do Jardim São Pedro. “Não passa um ano sem encher tudo aqui”, conclui. Outro comerciante, da região central, reafirma que nunca soube de trabalhos de limpeza da parte inferior do bulevar. “Nunca vi, nem tem como. Entrariam por onde?”, diz ele. “Nem vistoria nunca foi feita.” A prefeitura não esclareceu esse ponto também.