Foi mais um dia em um bar qualquer

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Durante um encontro de Jay Rocker com Jack Daniel’s numa noite vazia num bar qualquer, um contato visual repentino e um final inesperado

Formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, baterista da banda Vozes Incômodas, autor dos livros "Poesia das Ruas" e "Anarquismo: Uma questão de ordem, respeito e solidariedade", escrivinhador no site Interferência Urbana, ataca de poeteiro e contador de causos no site "Recanto das Letras", reside em algum lugar além do arco-íris, não está na moda, não bebe, não fuma, não cheira, não dança, não joga e não namora em pé.
Jay Rocker é formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, baterista da banda Vozes Incômodas, autor dos livros “Poesia das Ruas” e “Anarquismo: Uma questão de ordem, respeito e solidariedade”, escrivinhador no site Interferência Urbana, ataca de poeteiro e contador de causos no site “Recanto das Letras”, reside em algum lugar além do arco-íris, não está na moda, não bebe, não fuma, não cheira, não dança, não joga e não namora em pé.

Aquela garrafa de Jack Daniel’s estava sendo a minha melhor companhia naquela noite fria, salvo que ao fundo ouvia Sarah Vaughan cantando Sometimes I’m Happy em uma velha Jukebox. Talvez fosse minha quarta ou quinta ficha da sequência que tinha Jackson Five, Manhattans, Michael Jackson, Johnny Cash, entre outros.

Às vezes eu fico feliz, assim como Sarah. Não era esse dia. Eu estava ali, pensando na vida, nas coisas que tinham acontecido, em como os andamentos da banda que toco estavam, as mudanças em minha vida e como as novas oportunidades de trabalho estavam acontecendo. Muita coisa ao mesmo tempo e percebendo que estava envolto só na química da música e eu, enquanto o jovem Michael Jackson cantava Music and Me na mesma Jukebox (que insisto em chamar de Junkye Box).

Sorvia cada gota de meu copo. – Hey, campeão, mais três pedras de gelo, por favor!, sim, um pouco de gelo para esquentar meu ânimo. Continuava ali, perdido em pensamentos e olhando as pessoas que passavam por mim. Jovens, velhos, homens e mulheres, todos em busca de alguma coisa, todos querendo algo mais. Olhar raso, vazio, petulante e desdém.

Um mix de personalidades perdidas naquele velho bar, escondido da correria do Centro, frequentado por poucos, mas só por quem sabia o que queria. Acho válido citar que essa ideia de fazer pubs escondidos, sem anúncios e/ou placas de identificação, é bem legal. São Paulo é realmente cosmopolita. Enfim, não tinha sido um dos melhores dias, por isso, achei de bom tom fechar o valor da garrafa, assim como um táxi para voltar para casa. Tudo pago, não tinha com o que me preocupar. 

Reparo nos movimentos alheios. Um velho com uma garota que poderia ser sua neta, mas ela estava com ar de pegada. Duas garotas que se beijavam, um casal conversando enquanto a moça passava seus dedos na borda de um copo com Martini e lá no fundo estava ela, sozinha, com ar de perdida e olhos que olhavam o nada. Senti que ela precisava de alguém, de um toque ou qualquer pessoa que ficasse ao seu lado e dissesse coisas que ela precisava ouvir. 

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Minha garrafa estava no fim. O último gole do velho Jack acabava de descer por minha garganta, me levantei, arrumei o terno e parti em sua direção. Marvin Gaye cantava Let’s Get It On na “Junkye Box” e talvez isso tenha me dado coragem de chegar perto daquela linda garota, de cabelos pretos, olhos de esfinge, lábios vermelhos como o mais puro dos sangues e pele tão linda quanto o sorriso que ela esboçou quando percebeu que eu chegava em sua direção. Para mim não era fácil isso, fora dos padrões de beleza, qualquer ameaça de contato poderia soar como um ogro aproveitador. Mas a recepção foi bem diferente do que eu imaginava.

Sim, confesso, a bebida e a música colaboraram para minha atitude. Geralmente não abordo as pessoas e minha timidez já me impediu de ficar com muita gente legal. Mas era diferente, eu sentia a necessidade de uma abordagem, eu sentia que era necessário puxar assunto e sentia que precisava dizer o que pensava. O que eu perderia? Era quase hora de ir embora, qualquer reação negativa seria o suficiente para eu sair e viajar 45 km até minha cidade. Então, como disse o Marvin, “Vamos botar para quebrar”.

Vi que seu rosto dizia “sim, fale comigo” e me lembrei que nunca tive “xaveco”. Bom, eu não tinha o que dizer, então procurei ser o mais simples possível e tentar uma clássica abordagem. Cheguei ao seu lado, pedi licença para sentar, olhei em seus olhos e perguntei:
– Olá, doce garota. Por ventura seria teu pai algum estilista?
– Não, por quê? – me pergunta com um sorriso faceiro.
– Percebi. – respondo e completo – Porque esse seu ton sur ton está tão démodé, tão outdated… Ah, e essa sua saia drapeada é o ó!
Me levantei, fiz a egípcia e sai em seguida, sem ao menos olhar para trás.

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