De vítima a suspeito: as reviravoltas do caso de envenenamento

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Após quatro mortes e quatro internações, Justiça determina prisão preventiva de uma das vítimas

Em apenas cinco dias, multiplicaram-se as versões sobre a origem do envenenamento de oito pessoas, das quais quatro morreram, no centro da cidade. Desde a manhã de sábado, 16/11, data em que sete homens e uma mulher passaram mal num ponto de ônibus na rua Duque de Caxias, na altura da praça das Bandeiras, foram pelo menos quatro teorias sobre o episódio, mas nenhuma apontava até a quarta-feira para a prisão preventiva de um dos homens que precisaram ser internados.

Bebida ingerida pelas vítimas já foi encaminhada para análise/Foto: Reprodução Polícia Civil

Por volta das 8 horas de sábado, uma mulher presenciou um grupo de oito pessoas – sete homens e uma mulher – passando mal na rua Duque de Caxias. A operadora de telemarketing Marina Guedes passava pelo local e chamou o resgate. Nesse momento, surgiu a primeira versão para o que aconteceu. Marina diz ter falado com Silvia Helena Euripes, uma das pessoas que necessitava de socorro. “Ela me contou que um deles foi pedir esmola e recebeu uma garrafa batizada”, referindo-se a um aguardante supostamente contaminado.

GCM, Polícia Militar e o resgate municipal se envolveram no atendimento às pessoas. Quatro morreram, duas no local e duas durante o socorro, e outras quatro foram encaminhadas ao Pronto Socorro Central (Sameb). O que se sabia até então é que todos haviam apresentado os primeiros sintomas indicativos de envenenamento momentos após ingerir uma bebida, coincidindo com a versão dada por Marina.

Vítimas começaram a passar mal após tomar bebida na praça das Bandeiras

Em poucas horas, no entanto, autoridades municipais assumiram o controle das informações e se apressaram em tentar afastar a causa dos homicídios da cidade. A secretária de Segurança Pública, Regina Mesquita, logo afirmava com convicção que um dos homens internados havia declarado ter trazido a garrafa com o líquido contaminado da Cracolândia, região central da capital, a 27 quilômetros de Barueri. A declaração da secretária se baseava na versão de Vinícius Salles Cardoso e na checagem das câmeras de segurança do município.

Segundo ela, um dos “moradores de rua” afirmou ter estado na véspera na Cracolândia, onde passou o dia usando cocaína e crack. De acordo com o relato que a secretária diz ter ouvido, o homem passou a pedir dinheiro na rua e uma pessoa lhe deu uma garrafa, que ele pôs na mochila. De volta a Barueri, ele teria passado a noite no abrigo, e de manhã se reuniu com os amigos na região da praça das Bandeira, quando todos beberam do líquido e logo começaram a passar mal.

Regina afirmou que no levantamento nas imagens das câmeras da área não foi verificado nada de anormal. “Nenhum carro parado, nenhuma pessoa que chegou a esse grupo fornecendo qualquer outra coisa”, disse ela. “Nós temos as imagens nítidas, que inclusive já foram fornecidas para a Polícia Civil. Então não houve, por Barueri, essa maldade.” A prefeitura tratou desde o início de apontar as vítimas como moradores de rua.

Segundo dia: vítimas identificadas e uma morte que não aconteceu

Em meio às especulações de pessoas que passavam pelo local onde a bebida foi consumida pelo grupo, alguns desconfiavam da versão oficial dada pelas autoridades; outros questionavam a não divulgação das imagens das câmeras de monitoramento da cidade; havia quem levantasse a hipótese de uma ‘faxina social’ por parte dos comerciantes locais.

As vítimas foram identificadas, familiares se apresentaram, deram entrevistas e informaram: não eram moradores de rua, eram inclusive pessoas conhecidas na vizinhança.

A comoção em torno do envenenamento aumentou quando foi anunciada equivocadamente a morte da quinta vítima, Renildo Ribeiro Freitas. A informação foi retificada poucas horas depois.

O sobrevivente que teria declarado ter trazido a garrafa ainda lacrada dentro da mochila, permanecia internado e inconsciente, como afirmou em entrevista uma parente. “Ainda não falei com ele (Vinícius Salles Cardoso ). Ele está sedado, medicado, não acorda.”

A vítima que vira suspeito

Na terça-feira, 19/11, pouco mais de 72 horas depois do momento em que as oito pessoas ingeriram a bebida que teria causado o envenenamento, Vinicius, apontado como o responsável pelo transporte da garrafa que foi dividida com os sete amigos, prestou depoimento à polícia e reafirmou que trouxe a bebida da Cracolândia quando pedia dinheiro no farol e lhe foi oferecida a garrafa.

A declaração reforçava a versão dada pelas autoridades de Barueri poucas horas depois do ocorrido – teoria descartada pela polícia pouco tempo depois.

Em Barueri, câmeras de segurança mostravam imagens, divulgadas apenas três dias depois do ocorrido e da declaração da secretária de Segurança, afirmando que as imagens não mostraram nenhum movimento estranho no local, de Vinicius, que agora é considerado suspeito da morte das quatro pessoas, chegando à rua Duque de Caxias carregando uma mochila e uma sacola plástica amarela.

Em novo depoimento, antes do fim do mesmo dia, Vinicius mudava sua versão. Para a polícia, disse que a garrafa foi encontrada numa rua de Barueri próxima da praça das Bandeiras.

Ele afirmou que foi dormir no albergue e no dia seguinte deu a bebida ao grupo. Diante das divergências das declarações, a polícia pediu à Justiça sua prisão preventiva por 30 dias.

Pedido atendido, e ele saiu da cama do hospital direto para a cadeia pública de Carapicuíba. 

Terceira versão coincide com a primeira informação

Mas Vinicius mudaria sua versão mais uma vez na própria terça-feira, 19/11, quando declarou ter recebido a garrafa na rua Antonio Pereira Tendeiro, ao lado do ponto onde as vítimas beberam o líquido, de uma pessoa que passou pelo local num carro preto e o orientou a dividir a bebida com os colegas. A afirmação coincide com o que a testemunha inicial afirma ter ouvido de uma das vítimas desde o primeiro momento.

Com as recentes revelações, o promotor Vitor Petri passou a considerar a hipótese de crime encomendado. “Parte das vítimas era usuária de drogas e possivelmente poderiam ter dívidas com traficantes ou que o Vinicius tivesse algum envolvimento”, afirmou o promotor Vitor Petri. “Nada neste momento é descartado pela polícia ou pelo Ministério Público.” Já para a advogada de Vinicius, Patricia Carvalho, a prisão dele é precipitada. “Ele é vítima”, afirma.

Laudos e resultados da perícia 

A previsão é de que até sexta-feira, 22/11, devem sair os dados do Instituto de Criminalística (IC) sobre o que pode ter sido misturado à cachaça, e o Instituto Médico-Legal (IML) deve divulgar detalhes sobre a causa das mortes.

As oito vítimas do envenenamento são Denis da Silva, Luiz Pereira da Silva, Marlon Alves Gonçalves e Edson Sampaio da Silva, que morreram. Os sobreviventes são, além de Vinicius Salles Cardoso, que está preso, Renilton Ribeiro Freitas, Sidnei Ferreira de Araújo Leme e Silvia Helena Euripes, que receberam alta do HMB na manhã desta quarta-feira, 20/11.