Versões diferentes e quatro linhas de investigação sobre envenenamento

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Investigadores da Polícia Civil devem ouvir sobreviventes, que ainda estão internados

Bebida ingerida pelas vítimas já foi encaminhada para análise/Foto: Reprodução Polícia Civil

A Polícia Civil deve ouvir ainda hoje, 18/11, os cinco sobreviventes de envenenamento na rua Duque de Caxias, altura da praça das Bandeiras, no centro da cidade no sábado, 16/11, que deixou quatro mortos (leia mais). A linha de investigação se dá na causa das mortes, se foram em decorrência de crime ou fatalidade.

Vinicius Salles Cardoso (31 anos), Sidnei Ferreira de Araújo Leme (38 anos), Silvia Helena Euripes (54 anos) e Paulo Cezar Pedro devem depor sobre o caso. Eles estão internados no Hospital Municipal de Barueri (HMB) e, de acordo com o último quadro médico divulgado pela prefeitura, o estado de saúde deles é regular e estável.

Até o momento são abordadas quatro linhas de apuração do caso. A primeira seria de que comerciantes da região poderiam ter dado a garrafa com a bebida envenenada para o grupo que permanecia no local. Há relatos de que vítimas e comerciantes teriam discutido antes pelo fato delas ocuparem o lugar, o que atrapalharia o comércio.

Outra seria a relatada pela Guarda Civil Municipal (GCM) da cidade e reforçada pela secretária de Segurança e Mobilidade Urbana, Regina Mesquita, que teriam ouvido de um dos sobreviventes – Vinicius Salles Cardoso, que foi citado ao Barueri na Rede como o declarante da versão – que na sexta-feira, 15/11, estava na região da cracolândia, em São Paulo, parou no semáforo para pedir dinheiro e recebeu a garrafa. O rapaz teria guardado a garrafa em uma mochila e veio embora para Barueri, que fica a 25 km de distância da cracolândia na capital.

A terceira hipótese seria de que as vítimas teriam misturado medicamentos com entorpecentes e álcool, resultando em uma espécie de overdose. Também não foi descartada a possibilidade do grupo ter consumido álcool adulterado.

Testemunha afirma que bebida foi entregue em Barueri

A outra linha de investigação vem de uma testemunha. A operadora de telemarketing Marina Guedes, de 33 anos, contou ao Barueri na Rede que descia do ônibus quando se deparou com um senhor pedindo socorro e para chamar o resgate que tinham pessoas convulsionando. “Perguntei o que tinha acontecido e disse ‘envenenaram eles'”, afirma.

Ela lembra que tentou ligar para o resgate e para GCM, mas que conseguiu ajuda apenas quando ligou para a Polícia Militar, que protocolou o caso e transferiu para o Samu. “Enquanto pedia o resgate, a mulher [Silvia Helena] que não estava passando mal ainda, falou pra mim que foi veneno na cachaça. Disse que assim que colocou na boca, a língua dela adormeceu e aí ela cuspiu fora, mas que os outros do grupo continuaram bebendo”, conta. “A Silvia informou que um rapaz de carro passou e deu a cachaça pra eles, não falou que carro era nem a cor”, continua.

Marina revela que pediu para que Silvia não jogasse a garrafa fora e que era para entregar assim que a ambulância chegasse. “Ela colocou a garrafa do lado e ficou tentando salvar a vida do marido dela [Marlon], e não conseguiu. Foi a cena mais horrível que eu já vi na minha vida. Ninguém nesse mundo merece ter uma morte como esses homens tiveram”, se emociona.

Segundo a operadora de telemarketing, Marlon foi o primeiro a falecer. Outras pessoas se aproximaram do local e também tentaram ligar para o resgate. “Foi a coisa mais horrível que eu já vi na minha vida. A sorte dela [Silvia Helena] e do Vinicius foi que eles começaram a passar mal próximo ao momento que o Samu chegou. Eles estavam mal, mas foram socorridos com vida”, relata.

Com isso, a vítima que teria recebido a bebida na cracolândia não foi a primeira a passar mal. Marina ainda refuta a versão da GCM de que uma das vítimas adquiriu a garrafa na cracolândia, já que provavelmente essa pessoa teria bebido do conteúdo do frasco durante o percurso de mais de 20 km da região de São Paulo à Praça das Bandeiras. “Não teve cachaça vindo de cracolândia. Não tem nem cabimento uma história dessas”, alega.

“Não eram meus parentes, mas e se fossem? Tem dois dias que eu não durmo porque a cena não sai da minha cabeça. Foi maldade pura. Cadê as câmeras? Puxem as câmeras. Só mostraram a Guarda chegando, por que não mostraram de antes, da gente desesperado tentando chamar o resgate?”, conclui.

Sobre a versão dada pela prefeitura no dia do envenenamento, de que a bebida teria sido conseguida na cracolândia, em São Paulo, uma parente de Vinicius, em entrevista ao SPTV da TV Globo exibido nesta segunda-feira, declarou que não acredita que ele, como dependente de álcool, teria trazido o líquido para Barueri sem beber em algum momento.

O que dizem as autoridades

Sobre as investigações do caso, depoimentos e o que as imagens das câmeras de segurança revelaram, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou, em nota, ao BnR que o caso é investigado como morte suspeita pela Delegacia de Barueri, que instaurou inquérito policial. O frasco contendo a substância ingerida pelas vítimas foi apreendido e encaminhado para exames periciais.

A nota diz ainda que a autoridade policial responsável pelo inquérito está ouvindo as vítimas sobreviventes e que ‘realiza diligências para localizar imagens de câmeras de monitoramento ou testemunhas que auxiliem no esclarecimento dos fatos’.

O BnR questionou também a prefeitura de Barueri sobre como a cidade está ajudando nas investigações do caso, se as imagens do local no dia do crime seriam cedidas ou divulgadas e sobre quem das vítimas teria declarado à GCM e consequentemente a secretária Regina Mesquita, de que teria adquirido a bebida em São Paulo e não em Barueri. A administração pública apenas informou da atualização do quadro clínico das vítimas e não respondeu aos demais questionamentos.

Entenda o caso

Na manhã de sábado, 16/11, agentes da GCM foram informados de que um grupo de pessoas estava sofrendo convulsões na rua Duque de Caxias, altura da praça das Bandeiras, no centro da cidade. Após a chegada do resgate, foi constatado que dois homens já haviam morrido. Cinco homens e uma mulher foram levados para o Pronto Socorro Central (Sameb), onde outros dois homens acabaram morrendo no próprio sábado, todos de parada cardiorrespiratória.

Denis da Silva (idade não identificada), Luiz Pereira da Silva (49 anos), Marlon Alves Gonçalves (39 anos) e Edson Sampaio da Silva (40 anos) estão entre os mortos. Vinicius Salles Cardoso (31 anos), Sidnei Ferreira de Araújo Leme (38 anos) e Silvia Helena Euripes (54 anos) estão entre os sobreviventes que seguem internados no HMB. Na manhã de domingo, 17/11, a prefeitura chegou a informar a morte Renilton, mas retificou a informação e ainda adicionou Paulo Cezar Pedro à lista de vítimas (veja aqui).

Segundo a prefeitura, um dos sobreviventes afirmou que uma garrafa com bebida alcoólica lhe foi oferecida por desconhecidos na cracolândia, área da região central de São Paulo. Ele teria então voltado a Barueri e compartilhado a bebida com outras pessoas que vivem nas imediações da esquina das ruas Duque de Caxias e Campos Sales. Oito pessoas começaram a passar mal tão logo beberam o líquido.

Os corpos de Marlon Alves Gonçalves, Edson Sampaio da Silva e Denis da Silva foram sepultados no domingo, 17/11, no Cemitério Municipal de Barueri, na Praça da Saudade. Já o corpo de Luiz Pereira da Silva foi sepultado no cemitério Santo Antônio, em Osasco.