Sobre feminicídio

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2017 começou com uma onda de assassinatos de mulheres por seus companheiros (ou ex) em Barueri. Siméia fala de como a sociedade produz essa situação

Apaixonada por livros desde muito nova, aspira a escrita como forma de emancipação. Seu amor pelos livros a levou diretamente para a área da educação e em direção aos livros. Hoje, é revisora e professora e, sempre que possível, adora discutir sobre a vida e suas complexidades. Negra e mulher, há um bom tempo vem discutindo as inúmeras formas de opressão, buscando sempre modos de superação e emancipação. Tem uma relação muito próxima com a cidade de Barueri onde cresceu e partilhou infância e boa parte de sua vida adulta.
Apaixonada por livros desde muito nova, aspira a escrita como forma de emancipação. Seu amor pelos livros a levou diretamente para a área da educação e em direção aos livros. Hoje, é revisora e professora e, sempre que possível, adora discutir sobre a vida e suas complexidades. Negra e mulher, há um bom tempo vem discutindo as inúmeras formas de opressão, buscando sempre modos de superação e emancipação. Tem uma relação muito próxima com a cidade de Barueri onde cresceu e partilhou infância e boa parte de sua vida adulta.

Feminicídio é o assassinato de uma mulher pela sua condição de mulher, motivado usualmente pelo ódio, desprezo, sentimento de perda do controle e da propriedade sobre as mulheres, muito comuns em sociedades marcadas por uma visão deturpada do feminino.

O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos, ocupando a quinta posição em um ranking de 83 nações, o que nos diz muito sobre nós brasileiros, sobre nós mulheres brasileiras e, principalmente, sobre ser mulher no Brasil.

Bom, de acordo com o Mapa da Violência 2015, entre 1980 e 2013, 106.093 brasileiras foram vítimas de assassinato. O Mapa mostra ainda o peso da violência doméstica e familiar nas altas taxas de mortes violentas de mulheres. Ou seja, dos 4.762 assassinatos de mulheres registrados em 2013 no Brasil, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo que em 33,2% o crime foi praticado pelo parceiro ou ex-parceiro.

São dados bastante assustadores que nos fazem algumas perguntas: por que as mulheres se submetem a parceiros violentos? Por que elas aceitam? Como deixam isso acontecer? Por que simplesmente não vão embora? Por que suportam tanta violência?

Há um tempo, num livro do Mia Couto, escritor moçambicano, li o seguinte trecho de uma conversa entre duas mulheres:

“– Por que aceitamos tanto? – questionou Noci.
– Quem?
– Nós, mulheres. Por que aceitamos tanto, tudo?
– Porque temos medo.

O nosso medo maior é o da solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de deixar de ser mulher. Ou se converte, para a tranquilidade de todos numa outra coisa: numa louca, numa velha, numa feiticeira. Ou […] numa puta. Tudo menos mulher. […] neste mundo só somos alguém se formos esposa”.

Isso me fez lembrar as inúmeras mulheres que conheço ou conheci, ao longo da minha vida, e na necessidade, nem sempre afetiva, de um parceiro. É quase como se não pudéssemos nos ver no mundo sozinhas, como se fôssemos meras extensões do masculino, do homem. Pensar em nós, mulheres, fora da caixa de “ser de alguém” é quase uma violência à ordem natural das coisas.

E daí, para nos encaixarmos na vida possível a nós, nos submetemos.

Desde criança somos moldadas diariamente para caber no sonho de consumo masculino. Na infância, aprendemos a cuidar do outro, alimentamos nosso “instinto” maternal. Adolescência é hora de correr atrás deles, de desenvolver nossas habilidades femininas de como agarrar um homem para que, na vida adulta, encontremos finalmente aquele que vai possibilitar nossa existência no mundo: um homem para chamar de seu!

E quando finalmente um homem topa nos receber na empreitada dele, na vida dele, aceitamos. Só aceitamos, porque é só isso que nos cabe.

E quando o ciclo de violência se inicia, cabe a nós, em muitos casos, a responsabilidade, a culpa, a vergonha, o medo. Fomos criadas para sermos deles, portanto, talvez estejamos entendendo errado e o tapa ou o soco foi só nervosismo, ele estava descontrolado, bravo, irritado, não devíamos tê-lo afrontado daquele jeito. Os homens têm a responsabilidade do mundo nas costas, precisamos entendê-los. E quando um homem finalmente nos mata, descobrimos que isso é o que chamam de crime passional, ele nos mata porque nos ama.

Daí, aprendemos mais uma lição dentre tantas: nossa vida vale menos, bem menos nessa sociedade machista que nos diz para sermos do outro, que alimenta e romantiza nossa falta de individualidade e, depois, quando tudo se finda, nos culpa por sermos mortas por aqueles que “prometeram” nos proteger, nos amar, nos dar um lar para que pudéssemos ser alguém, sendo de alguém.

Ora, não é para isso que a sociedade tem nos criado? Tem alimentado nossa ideia de incompletude? Nossa necessidade de sermos do outro, preferencialmente, de papel passado e tudo?

É aqui que este texto chega: no fim. No fim de tudo. E ele chega tarde, cheio de vozes silenciadas, de histórias cortadas, de sonhos violentamente mortos, de incompletude, de faltas e falhas, porque, assim como os dados, este texto fala de seres humanos que não existem mais, que não estão aqui para ver seus filhos crescerem, rirem, chorarem, brigarem e se amarem. Esses dados são vidas e doem. Doem principalmente quando nos lembram das vidas apagadas da história, mutiladas, finalizadas por serem vidas femininas.

E a única coisa que chega aqui é a esperança de que esses dados um dia soem em nós, machuquem-nos e nos comovam a repensarmos nosso modo de estar e ser no mundo.

Que este dia não se demore, pois temos pressa! Muita pressa pela plena existência e pelo fim desse desperdício de vida que estatísticas e dados não comportam, jamais comportarão!