Shopping no dia 20 de dezembro

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No começo dos anos 80 tocou guitarra em bandas como Flor de Lótus e Rosa Luxemburgo. Precursor do skate - se orgulha de dizer que já andava de skate desde a época que a cidade tinha poucas ruas pavimentadas. Autor do fanzine Decadance e editor do Jornal Notícias por 15 anos, também se aventurou na produção de alguns curtas
No começo dos anos 80 tocou guitarra em bandas como Flor de Lótus e Rosa Luxemburgo. Precursor do skate – se orgulha de dizer que já andava de skate desde a época que a cidade tinha poucas ruas pavimentadas. Autor do fanzine Decadance e editor do Jornal Notícias por 15 anos, também se aventurou na produção de alguns curtas

Todos sabemos que a proximidade do Natal transforma o mundo num hospício. A correria pra comprar presentes amplia o nível de insanidade, sempre vinculado ao aumento do consumo. Evito ir a locais como shopping centers nesse período. Ocorre que esse ano me comprometi a ajudar uma ONG, apadrinhando uma criança, pra quem eu deveria comprar roupas, calçado e um brinquedo. Na véspera do dia da entrega, tive que recorrer ao tal shopping. Decidi ir no Park Shopping, da Aldeia de Barueri.

Saindo de Carapicuíba, na divisa com Barueri, começou uma forte tempestade. Meu joelho esquerdo doía e um mal estar chegou não sei de onde. Quando me dei conta, estava suando frio. Mas só tinha aquela noite pra comprar o presente, o dia 20. Tinha que ser aquela noite. O estacionamento lotado. Difícil achar uma vaga, lá no fim. Desci do carro na chuva forte. Peguei o guarda-chuva e tentei abrir, só que ele não ficava aberto. A trava quebrou. Tudo bem. Abri e fiquei segurando, pra não me encharcar. Andei poucos metros e mais uma: bela hora pra descobrir que estava com sapato furado. Chegando afinal na porta do shopping, me dei conta de que havia uma multidão com a mesma decisão que a minha. Mas não havia outro jeito.

Lojas lotadas e corredores cheios. Mas era só um vestido, uma camiseta, uma sandália e um brinquedo. Nem imaginava que essa compra iria se transformar num imenso desafio. Na C&A, pra comprar uma camiseta, uma fila de 20 minutos pra pagar. Bom, pelo menos havia nove caixas atendendo. Já na Riachuelo, a fila estava muito maior, e apenas quatro caixas atendendo. Cerca de uma hora em pé, com o joelho doendo, o que acaba com a paciência de qualquer cristão. O que dirá de quem não é cristão.

Até que, depois de uma longa espera, a moça ao lado anuncia: “caixa livre”. Disparei naquela direção, mas uma menina (menina mesmo) retirou o dinheiro do caixa e parecia checar a quantia em papel moeda, conferindo com os dados de um documento. Só que a pessoa contava e recontava a mesma quantia muitas vezes. Aquilo me irritou muito. Quatro notas de 20 e quatro notas de 5 totalizam 100, sempre.

Bem irritado, tentei ajudar, meio que orientando a retardada: “quatro notas de 20 e quatro notas de cinco sempre terão o mesmo resultado. Você pode contar 50, 200 ou mil vezes: sempre dará o mesmo montante”. Aos invés da imbecil se tocar e agilizar meu atendimento, preferiu mesmo contar e recontar as mesmas oito notas. Cheguei a perguntar se a moça era estagiária, sugerindo que fosse brincar num parque e deixasse aquela função pra um adulto. Puto da vida. E aí uma outra funcionária, operadora de caixa, me atendeu. Paguei a porra do vestido e saí da merda da loja marchando.

Mas ainda teria que passar no supermercado Sonda, local pra mais um enigma: por que no açougue havia apenas uma pessoa para atender a fila toda? Mercado lotado, corredores estreitos, comprei só o que estava na lista e corri pro caixa. Passei a compra rapidinho e apresentei o tíquete do estacionamento. Só que o tal tíquete já somava mais de 2 horas, devido ao longo tempo nas filas das compras anteriores. Ok. O único jeito seria pagar no quiosque perto da porta de entrada. Rumei pra lá com um carrinho que tinha uma merda de uma roda torta. Que suplício! Chegando na cabine, outra fila. Encarei ainda essa outra fila! Até que chegou a minha vez e me dei conta que havia esquecido o cartão do banco no caixa do mercado. Corri pra lá, cruzando todo o shopping com aquele carrinho de roda torta, peguei o cartão e voltei – cruzando todo o shopping novamente. Aff!

Paguei a merda do tíquete e fui pro estacionamento: lotado ainda (já citei aqui que era o dia 20 de dezembro?). Tudo muito lento pra sair, até que em um determinado instante, parou. E pude ver, a uns 50 metros, duas mulheres quase se atracando. Ocorre que uma delas, ao sair da vaga, bateu na lateral de um outro carro, que estava na fila pra sair. E a proprietária do carro amassado estava determinada a matar a infeliz distraída. De onde eu estava, dava pra ouvir frases carinhosas como “vaca gorda, filha da puta do caralho. Cê ta cega, desgraçada?”. Uma baixinha valente tentava segurar a moça furiosa. Até que, algum tempo depois, os guardas chegaram e deram um jeito na situação, liberando novamente a saída.

Pensei que então eu poderia ir pra casa, afinal. Só que não. O tempo de espera na fila (por conta da briga) invalidou o prazo para o tíquete de estacionamento. Pra todos daquela fila na minha frente. E eu suado, cansado e puto da vida. Por sorte, alguém caiu do céu e liberou os veículos, mesmo com os tíquetes vencidos. Ao passar pelo porteiro, ainda tive tempo de comentar: “ainda bem que o Natal só acontece uma vez ao ano”. Ao que ele assentiu: “graças a deus”.