Editorial: Os donos da palavra final

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A classe política de Barueri não é aberta ao diálogo e sente-se ofendida com qualquer forma de organização da sociedade

Recentes episódios ocorridos em Barueri comprovam com clareza aquilo que se percebe há algum tempo, que esta não é uma cidade de diálogo e que quem tem o poder não está aberto para o debate e a busca do senso comum. As decisões são tomadas de cima para baixo e cabe à população aceitar. Aqui, como em nenhum outro lugar, o que prevalece é o ditado que diz “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Um bom exemplo foi a votação pela Câmara dos Vereadores do projeto que cria os planos de carreira do funcionalismo municipal. Vários legisladores declararam sem nenhum constrangimento, depois da tensa sessão em que houve apitaços e buzinaços, que votaram a favor justamente porque sentiram-se ofendidos com as manifestações dos guardas.

Não aceitaram que um dirigente sindical os confrontasse com ideias. Sim, porque ali se tratava de um debate de ideias, ninguém agrediu ninguém, como ocorreu entre os próprios vereadores. O que os políticos não admitiram é que alguém conduzisse o povo, pois eles consideram que, por terem sido eleitos pelo voto, estão acima de tudo.

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É verdade que o voto é o principal instrumento da democracia e, nesse sentido, é intocável. É também verdade que os manifestantes exageraram em seu direito de protestar, impedindo o livre debate entre os legisladores. Mas ninguém tem o monopólio da liderança.

Sindicatos incomodam os políticos de Barueri, que fazem um especial trabalho de demonizar as lideranças dos trabalhadores. Mas elas são importantes instrumentos de defesa da população, cumprem um papel que ninguém mais faz. Ou as nobres excelências da câmara vão se dispor a ir para as portas da empresas defender os direitos de quem trabalha? Vão enfrentar as mesas de negociações, pressões do dia a dia de chefes e empresários?

Claro que não. Nenhum vereador nem sequer se dignou a ir ao encontro dos funcionários para ouvir e discutir suas reivindicações. Ao contrário, desprezaram e descumpriram acordos feitos com os funcionários. Então, que deixem os sindicatos cumprirem sua parte, cada um no seu papel.

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O Executivo não fica atrás. No mesmo caso dos planos de carreira, encenou conversas e acordos e, no fim, deixou tudo como antes. Tudo o que queria impor, ficou no texto final dos projetos.

O mesmo está fazendo com as merendeiras. Há anos as profissionais estão tentando converar com alguém que ouça suas reivindicações. Sempre se esquivaram, valeram-se do tempo, do cansaço do outro lado, apostaram na desistência. Finalmente, quando confrontados com uma manifestação nas portas da prefeitura, fingiram chamar para o debate, mas com a nítida intenção de não oferecer nada, nem diálogo.

Positivamente, a sociedade está abrindo os olhos, percebendo como funciona o jogo da imposição, às vezes, travestido de diálogo, às vezes, truculento, com as ameaças de costume. Não há avanço na sociedade se seus problemas não forem debatidos com o objetivo de buscar pontos de benefício comum.

O voto não torna ninguém infalível. E quem não está disposto a ouvir e ceder não entendeu, ou não quer entender, como funciona o jogo da democracia. Todos têm direito a se expressar, de se reunir como lhes convier e de lutar pelo que consideram justo. O contrário disso se chama ditadura.