O muro da vergonha

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Fica no Parque Imperial uma das mais vergonhosas ações do poder público local contra a população, um muro que separa ricos e pobres e promove uma segregação social e econômica em prejuízo dos que, é claro, mais precisam.

Pouca gente conhece essa violência contra a cidadania. Na verdade, poucos conhecem o Parque Imperial. A maioria dos baruerienses jamais colocou o pé lá e mesmo sua localização é um mistério para muitos. “É um bairro de Barueri que fica para lá de Osasco”, “É um lugar depois de Alphaville”, costumam dizer sem muita certeza.

Pois no Imperial vivem mais de 30 mil pessoas, o que faz dele um dos bairros mais populosos da cidade. Mais de 10% da população de Barueri mora ali. São pessoas que trabalham, enfrentam todas as dificuldades de locomoção, pagam impostos, mas são desprezadas pelo poder público. Afinal, além dos seus moradores, ninguém vê o que acontece no Imperial.

O lugar ficou um pouco mais conhecido por causa de uma quase tragédia. Uma encosta desmoronou no início de junho e teve que ser parcialmente interditada. Foi então que o restante da cidade descobriu que o Imperial tem um único acesso, e que se ele caísse por inteiro, as pessoas não poderiam entrar nem sair.

Mas nem sempre foi assim. Até sete anos atrás, havia uma outra ligação, que levava ao Tamboré, a cinco minutos de carro do shopping. Esse caminho nunca foi oficializado, apesar dos pedidos dos moradores. Tratava-se de uma estrada de servidão, ou seja, uma área particular utilizada pelas pessoas por sua utilidade pública.

JanelaImperial

Jamais houve interesse do poder público em regularizar a situação. Ele sempre teve meios e recursos financeiros, mas nunca existiu vontade política. Ao contrário, como veremos.

Em 2009, a prefeitura anunciou com toda pompa que construiria no Imperial um centro comunitário. Seria um local de lazer e estudo profissionalizante. A notícia foi recebida, obviamente, com muito entusiasmo pelos moradores. Assim, tal centro foi erguido. Onde? Exatamente no ponto em que passava o caminho que permitia o acesso rápido ao Tamboré, a Alphaville e à Castelo Branco.

As duas coisas podiam coexistir, cabiam ali o centro comunitário e a passagem. Mas, não, foi tudo fechado. Em 2010, pouco antes da campanha eleitoral, o local foi inaugurado com festa, como uma grande benfeitoria para o bairro. E funcionou por cerca de dois anos. Enquanto isso, grandes muros foram erguidos na sua retaguarda, longe da visão da população. Até que, de repente o centro foi abandonado.

Hoje, o que se vê são altos muros com serpentinas de arame no alto, como os das penitenciárias, protegendo os que estão do lado de lá dos que estão do lado de cá. Do centro comunitário restou um prédio abandonado em avançado estado de deterioração, sem janelas, sem telhas, ponto de encontro de traficantes e usuários de drogas.

O plano funcionou perfeitamente. Iludidos por um equipamento público que melhoraria suas vidas, os habitantes do Imperial foram enganados. Do que havia em 2009, restou apenas a exclusão, garantida pelas altas paredes.

O muro do Imperial é a personificação de um modelo excludente de Brasil, didaticamente demonstrado por Gilberto Freyre no clássico Casa Grande e Senzala, publicado há mais de 80 anos. O direito fundamental dos 30 mil moradores lhes foi retirado em nome do privilégio de alguns poucos. Mais especificamente, de três casas, que é o que há do outro lado do muro. Três grandes casas que podem ser vistas, imponentes, da senzala em que transformaram o bairro. Três casas grandes que, acham alguns, valem mais que 30 mil pessoas.

O muro da vergonha é ainda mais vergonhoso quando se pensa que nada disso era necessário, que ali podia haver uma avenida por onde circulassem todos. Mas nada aconteceu por acaso, por engano. Tudo foi feito exatamente com esse intuito, o de segregar. Cada passo foi cuidadosamente estudado. É desse tipo de política que o brasileiro está farto, da política da mentira, da dissimulação, do engodo e dos clubes de amigos que governam para si.

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