Entre borrachas e apontadores

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Em tempos de discussão educacional, Jay Rocker relembra como suas primeiras professoras influenciaram sua vida para sempre

Formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, baterista da banda Vozes Incômodas, autor dos livros "Poesia das Ruas" e "Anarquismo: Uma questão de ordem, respeito e solidariedade", escrivinhador no site Interferência Urbana, ataca de poeteiro e contador de causos no site "Recanto das Letras", reside em algum lugar além do arco-íris, não está na moda, não bebe, não fuma, não cheira, não dança, não joga e não namora em pé.
Formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, ex-baterista da banda Vozes Incômodas, autor dos livros “Poesia das Ruas” e “Anarquismo: Uma questão de ordem, respeito e solidariedade”, escrivinhador no site Interferência Urbana, ataca de poeteiro e contador de causos no site “Recanto das Letras”, reside em algum lugar além do arco-íris, não está na moda, não bebe, não fuma, não cheira, não dança, não joga e não namora em pé.

Essa discussão de “tira matéria, coloca matéria, volta matéria…”, que vem aparecendo na mídia, associada aos comentários de que não existem bons professores, que precisamos de “escola sem partido”, docente que é docente faz por amor, entre tantas outras coisas, me remete aos meus primeiros contatos com a escola.

Iniciei meus estudos em 1985, ainda morava em Jandira (sai de Barueri em 1979 e só voltei em 1989), bem na divisa com Itapevi, o que me obrigava estudar em outra cidade por ser mais perto. Era uma época interessante, pois ninguém tinha babá, as mães se revezavam nos cuidados dos filhos, íamos para a escola a pé. Todos juntos. Não existiam peruas ou tutores. Desde cedo, onde morávamos, aprendíamos que “ou vivíamos juntos, ou morreríamos separados”.

Nessa época, estudava na EEPG do Jd. Briquet, hoje Cemeb Cecília Meireles, que ficava no número 2 da Rua Sabiá (atual 410).

Uma escola simples, de apenas duas salas, onde um diretor linha dura tomava conta. Seu nome? Benedito, que puxava orelha, colocava de castigo e se nossos pais descobrissem, apanhávamos em casa. Época em que “escolas ensinavam e pais educavam”.

Nunca fui um aluno comportado. Não me satisfazia com as lições e era presença frequente na diretoria. Não me recordo o nome de minha primeira professora, ela ficou pouco tempo e acredito que foram poucas as aulas que tive com ela, até porque eu mais ia para a diretoria e/ou ficava de castigo (sim, colocava o nariz na lousa e ficava com as mãos para cima, torcendo para o Seu Benedito não entrar e puxar as orelhas). Eu era a síntese do garoto problema nos três ou quatro primeiros meses. Tirava boas notas, mas não prestava atenção nas aulas.

Um dia mudaram a professora. Veio aquela senhora, a professora Lázara. Uma senhora, não sei precisar a idade, mas me lembro de seu olhar e suas palavras. Ela me chamou uma vez de menino traquina e perguntou porque eu não parava em meu lugar. Lógico que eu não sabia responder, tinha sete anos e nem a pré-escola tinha me aguentado. Ela me passou um exercício diferente e fiquei quieto, tentei resolver. Consegui. A aula passou e eu nem fiz bagunça alguma.

Alguns dias assim, ela me passando exercícios diferentes do que a sala fazia e eu fazendo. Sem fazer bagunça, sem conversar e introspectivo. Tudo estava certo, até que ela pede para chamar minha mãe. Fiquei com medo, pois a véia nunca pensou muito para dar umas porradas. Ela disse que precisava que viesse minha mãe ou meu pai, para uma reunião com ela e o Seu Benedito.

Dia seguinte: Gelava, suava e minha mãe já tinha dito que se fosse reclamação eu iria voltar apanhando pra casa. E pelado!

Todos entram na sala da diretoria. Eu espero no banco do lado de fora. Suava, pensava em fugir e não entendi porque minha mãe estava lá. Finalmente eu estava sendo um “bom aluno”. Que ódio! Eu devia ter feito bagunça, já que ia apanhar, que fosse merecido!

Perdido em meus pensamentos, me assusto com a professora Lázara sorridente me chamando para entrar na sala. O roscóviski estava mais travado que Corel Draw em dia de deadline, mas logo descobri que embora eu estivesse na primeira série, eu faria lição da segunda, pois como entrei alfabetizado, as lições que a grade continha, não me satisfaziam e por ser “banal” demais para meus conhecimentos, não recebiam minha atenção.

Desse dia em diante, minha lição era diferenciada. Prova também. Os dois últimos bimestres foram intercalações da segunda série e após passar de ano, comecei a fazer o curso normal, acompanhando os outros alunos.

Alguns anos se passaram e então chego na minha quarta-série, 1988, ano de eleição, crise da carne… Lá estou, junto de alguns amigos das periferias de Jandira e Itapevi, na mesma escola ansiosos para conhecer nossa nova professora. Durcília era seu nome.

Ela sempre dizia que éramos do tamanho de nossos sonhos, que poderíamos ser mais do que as pessoas achavam e que nunca poderíamos deixar nossa criança interior morrer. Vamos lembrar que “você pode ser mais do que as pessoas acham” para crianças da periferia, muitas vindo de favelas próximas da escola, era uma aberração até para as crianças.

Me recordo que nessa época eu crescia com crianças que pensavam em ser assaltantes, e muitas já tinham cometido seu primeiro furto. Mas enfim, vamos voltar a professora, que acreditava que poderíamos ser do tamanho de nossos sonhos.

Em 8/8/1988 ela chegou com uma proposta na sala. Um trabalho que não teria nota e ficaria com a gente, mas antes, ela queria que fizéssemos em uma aula, entregássemos e ela devolveria um a um, conversando em sua mesa individualmente sobre isso. O tema era 8 de Agosto de 2018. A ideia era escrever como estaríamos nessa data. Essa talvez tenha sido a maior experiência pessoal que eu estava tendo na infância e não tinha percebido, até rever a redação. Uma ponta de orgulho bateu, pois eu acabei sendo diferente de tudo que achavam, mas naquele momento, sem querer eu estava selando coisas para a minha vida.

Trechos como “Vou ter uma banda”, “vou ter um ou dois filhos. Não quero três porque ninguém liga pro filho do meio (eu sou do meio)”, “Vou ganhar dinheiro fazendo desenho, poesia e música”, “vou ir no show dos Titãs”, “vou ter gente cantando música que eu fiz”, “vou andar de avião”, “vou ter um videogame só meu sem precisar jogar na casa dos primos ou dos meus vizinhos”, “vou ter um jogo da vida”, “vou gravar um disco igual o Prince” (não tenho certeza, mas acredito que era porque um tempo antes ele tinha gravado um disco onde TUDO foi feito por ele, todos os instrumentos e vozes. A autossuficiência sempre me fascinou), foram as coisas que mais me chamaram a atenção, porque eram sonhos irrealizáveis para a época e salvo gravar um disco sozinho, o resto fiz tudo. Bom, em 2000 eu gravei todos os instrumentos (violão, voz, bateria e gaita) na música “Bem-vindo à Cidade Grande”, mas um disco solo ainda é possível. Essas coisas, tão simples e já realizadas, na minha cabeça eram totalmente irrealizáveis. Eu projetava aqueles 30 anos como uma coisa absurda, onde eu ia chutar o pau da barraca, porque achava que ninguém ia me cobrar isso.

Na redação, também percebi coisas que hoje me parecem idiotas como: “Vou comprar a pizza do gosto que eu quiser”, “ter um All Star”, “comer em lanchonete”, “ter roupa comprada pra mim” e tanta coisa que hoje é rotineira, era visto como uma coisa inalcançável para mim. “Eu não vou ver mais meus pais brigarem tanto” De uma forma ou de outra, também não vejo mais, seja por eles terem se separado alguns anos depois ou até mesmo pelas suas mortes.

E gente!!!! Eu escrevi que “vou ter um dinossauro de estimação”. Sério!

Nesse 8/8/88, data cabalística para alguns, foi uma das vezes que renasci. Alguns dias depois, quando foi minha vez de ter o “feedback” (tá, eu nem sabia que existia essa palavra) da redação, a professora Durcília, cheia de ternura me diz:

-Tudo que você escreveu, você pode conquistar, depende de você. Só o dinossauro que não, mas quer saber? É bom a gente ter um sonho que não vai realizar, porque se você realizar todos, a vida vai perder a graça.

Sim, talvez ela sabia, talvez não. Talvez fosse apenas intenção. Não sei quantos da minha sala realizaram os sonhos, mas eu tenho o orgulho e privilégio de ter feito boa parte daquilo que me propus. O garoto de 11 anos tem certeza de que venceu, se tornou um adulto que nunca o matou. E a professora Durcília, quiçá leia isso um dia, vai saber que ela fez uma puta diferença na vida de um de seus alunos e que sim, aquele “exercício de sala” fez a diferença para um de seus 40 alunos.

Essa sensibilidade também é notada na professora Lázara, que me ensinou que precisávamos olhar além do que os olhos podiam ver. Ela foi a pessoa que viu diamante onde todos viam carvão.

Hoje, já somam-se mais de 30 anos de minha primeira série e 28 da quarta, mas os ensinamentos dessas professoras não são esquecidos. E não me refiro ao ensinamento educacional. A formação que elas me deram foi muito além do ABC da “Caminho Suave”, elas me deram uma grande base de formação. Não me refiro a formação educacional, isso qualquer professor faz. Me a formação pessoal e moral. São docentes que de uma forma ou de outra colaboraram com a formação de quem sou hoje.

Um ensino mais humano. Algo raro nos dias de hoje, onde tudo é pasteurizado, tudo é feito de plástico, tudo perde o sentido. Apenas faça. Não aprenda porque você tem que fazer e nem para que você tem que fazer. Apenas aprenda fazer. Seja uma máquina. Repita até decorar, assim serás aprovado e aceito. Uma pena que tudo caminha para isso, mas não posso deixar de louvar meus anos de ouro, onde os professores faziam mais do que era esperado.

Essas são apenas duas pessoas que passaram e contribuíram com minha vida. Orgulho delas e torcendo ferozmente para que estejam bem e que seu caminho tenha sido o melhor. Quem sabe um dia não possa encontrar essas professoras e abraçar e agradecer pessoalmente?

Enfim, que todas as crianças possam ter a oportunidade de encontrar algum docente assim. Alguém que marque sua vida e lhe ajude crescer. Eu ainda encontrei outros pelo caminho, mas isso fica para uma outra ocasião. Por ora, é isso! Inté!

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