Paulo Américo e o engano que fez dele um ator

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Quando errou a data da primeira peça que iria assistir, o barueriense não imaginava que aquele engano faria dele um ator nacionalmente conhecido

Ele se descobriu no teatro, mas na TV é que foi descoberto pelo Brasil. Em fevereiro, Paulo César Américo começa a gravar a segunda temporada da série Chapa Quente, humorístico semanal da Rede Globo que deve ir ao ar a partir de abril. Como Godzilla, ele tornou-se conhecido a ponto de ser parado na rua. Mas foi graças a um descuido, um engano ao errar o dia em que iria ao teatro pela primeira vez, aos 20 anos de idade, que o Paulão, menino do Reginalice, começou uma carreira que hoje inclui, além da televisão, trabalhos como a peça A vida que eu Pedi, que fez ao lado de Ailton Graça, e seis filmes, entre eles, os premiados Salve Geral e Um Passo para Ir, pronto para estrear.

Do garoto brigão, “mas que apanhava muito”, que perambulou por todas as escolas da vizinhança, e que foi trabalhar numa clínica veterinária porque adora cachorros, nasceu um ator que aos poucos ocupa seus espaços na cena dramatúrgica sem romper os laços com Barueri. Aqui, com um grupo de jovens talentos locais, desenvolve o projeto Fragmentos, que trata das doenças dos tempos modernos. Projeto que vai ter que conciliar com a agenda cheia em 2016.

Num bate papo informal com o Barueri na Rede, Paulo Américo falou de sua ligação com Barueri, seu amor pela dramaturgia e seus planos para o ano que começa.

Você é de Barueri?

Sou de Barueri, vivi a vida toda aqui.

Como é sua história com a cidade?

Eu sou do Reginalice, foi onde eu cresci, moleque de jogar bola, andar de carrinho de rolimã. É um lugar onde todo mundo se conhece, todos os vizinhos, quem mora na rua de cima, na rua de baixo. Agora eu tenho ficado mais fora de casa que na região, mas a minha relação com a cidade é uma relação muito boa.

Você estudou em que escola?

Nossa, eu rodei acho que todas por ali…comecei no Myrtes, aí eu fui pro Raposo (e Paulo fala emendando uma na outra) , mas no Raposo brigava demais, aquelas coisas de dor de cabeça, saí do Raposo ainda molecão e fui pro Ivani, fiquei um tempo e saí e fui pro El Salvador, que é perto da minha casa, fiquei um ano lá, depois fui estudar em São Paulo, fiquei um ano e meio num colégio pago, voltei e terminei no Ivani. Ufa!

Nenhuma escola te entendeu?

Nenhuma escola me entendeu.

Mas você era brigão, mau aluno, o quê?

Ah, eu comecei a melhorar quando entrei no ginásio. Eu era brigão mas apanhava muito e era muito chorão na verdade, era um moleque meio chorão, não era muito estudioso…

E a sua adolescência? O que você fazia?

A minha adolescência foi praticamente dento da igreja, minha família é muito religiosa, da Congregação (Cristã no Brasil) e o meu lazer era esporte, fiz muito esporte. Fiz oito anos de judô, dois anos e meio de jiu-jitsu, depois fui pra natação, fiquei um ano e meio, mas saí e fiquei sedentário um tempo.

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Com Criolo, no filme Jonas, que estreia em breve/Foto Divulgação

Como você foi para a vida de ator, como começou isso?

Foi mais por curiosidade mesmo. Eu estava terminando o segundo grau, teve a divulgação de uma peça na escola, das oficinas culturais (da Secretaria de Cultura de Barueri), e eu acabei indo no dia errado, não assisti a peça, mas no dia que eu fui tava tendo uma aula de teatro. Eu fiquei pra ver a aula e depois a professora, que era a Nana Pequini na época, veio falar comigo e me explicou como funcionava o curso de teatro. Eu comecei a fazer, mas sem pretensão, comecei a fazer só porque era uma coisa nova na minha vida. Até então não tinha muito hábito de ler, nunca tinha ido a um teatro, filmes eu assistia bem pouco e não conhecia um outro tipo de cinema, a não ser o cinema americano, e aí o teatro foi me dando essas óticas pra descoberta de mundos, pra descoberta de outras coisas. Essa foi a primeira tacada e eu fui ficando.

O que houve depois desse encontro com a Nana…

Então, desse encontro, eu fui fazendo as aulas, comecei a fazer as aulas, fui fazer pra sentir e fiquei na oficina durante quatro anos, mas não tinha pretensão de ser ator, não. É uma coisa que foi me ganhando dia a dia, sabe? Depois desses quatro anos, porque chega uma época em que fica meio que limitado, eu senti a necessidade de fazer outras coisas fora. Você sente necessidade de conhecer mais gente, de fazer outros trabalhos, de fazer outros estudos, outras oficinas também, e aí eu fui fazendo outras coisas, mas aqui foi o pontapé inicial.

E como foi essa fase de, digamos, hobby?

Primeiro que em casa não entenderam muito bem o que era aquilo. Minha família é muito religiosa… eu tive que fazer escondido. Além disso, tinha que trabalhar. Trabalhei em clínica veterinária, eu adoro bicho, principalmente cachorro, fui office boy, promotor de vendas…

E quando foi o estalo, quando você pensou “isso aqui pode ser minha profissão”?

Depois que eu fiz um trabalho chamado Macário, que era direção do Marcello Airoldi. Antes disso, eu já tinha feito coisas interessantes, mas depois que eu fiz o Macário começaram a pesar algumas coisas sabe, porque era um texto tão apaixonante, tão bonito, ele é complexo demais, mas não estava verdadeiro pra mim, estava pras outras pessoas, mas eu não estava inserido de fato no que eu tava fazendo, e aí a gente teve uma conversa, me disseram “Paulo, não é por aí…”

Você levou uma intimada?

É (risos), levei uma intimada. Me cobraram, sabe, tem que estudar, como se fosse medicina, tem que entender, não é brincadeira, às vezes as pessoas vão fazer teatro e acham que é pegar o texto e subir no palco. Não é assim, é um processo longo, até você começar a fazer uma construção do personagem, até você começar a entender a relação de pessoas, você no palco, você em cena, e aí, foi nesse trabalho que eu tomei esse estalo e comecei a verticalizar mais, a ir pra um outro lado que é mais satisfatório pra mim, que é entrar no resultado.

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Aprontando todas em Chapa Quente, ao lado de Leandro Hassum/Foto: Divulgação

Você prefere o teatro, o cinema ou a TV?

Eu gosto dos três. O teatro é um exercício fantástico pro ator, e se exercita tudo no teatro, exercita o teatro, o cinema e a TV. Televisão é muito difícil de fazer, não é fácil, ela é muito técnica, e você tem que ficar preenchendo de emoção a técnica deles o tempo todo. Lá, você não tem aula, você chega completamente frio e “vambora”. Não tem uma preparação igual o cinema e o teatro. Já o cinema é uma coisa que te abraça, te pega no colo… é uma preparação quase igual à do teatro, e você começa lá no berço o personagem e vai entendendo tudo, ainda que seja uma participação pequena. Eu amo os três, mas eu faço teatro e faço TV pra fazer melhor cinema.

Mas foi a TV que botou sua cara na casa de todo mundo…

É, televisão dá uma visibilidade incrível. Eu comecei com um personagem pequeno em Chapa Quente e ele foi crescendo. Era um pesonagem bem pequeno, a princípio era uma participação, mas depois a Globo quis fazer um contrato comigo porque viram a possibilidade de o personagem crescer. Mas até então, sendo uma série que passa uma vez na semana, e era um personagem menor, eu tô lá na 25 de Março e o cara grita “Ô Godzilla”, eu pego o trem e nego fica falando “será que é?’, tô andando na rua e chegam “tira uma foto comigo”… é muito louco isso, né. Mesmo eu sabendo que a televisão tem essa vitrine, essa visibilidade enorme, eu nunca tinha sentido isso, agora é que eu tô sentindo.

Em 2016 vai ter o que pra você?

Eu começo com dois filmes em cartaz, Jonas, que esteve nos festivais de cinema do Rio e de São Paulo, e agora entra em circuito nacional, tomara que tenha uma vida longa, e tem Um Passo para Ir, também estreia no começo do ano. Em teatro tenho um projeto meu, que eu estou dirigindo, na verdade eu já estava dirigindo antes, mas agora eu tô dando continuidade, e aí eu volto pra televisão em fevereiro e começo a gravar de novo Chapa Quente e vou até o comecinho de julho.

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Ensaio de Orfeu, no Teatro Municipal de Barueri, com a atriz Paloma Bernardi/Foto: Secom-PMB

Em 2015 você fez Orfeu aqui em Barueri. Você tem feito trabalhos aqui, pretende continuar fazendo, ou sua agende impede?

Então, esse trabalho que eu tô dirigindo chama-se Fragmentos. É um trabalho que nasceu aqui, com atores daqui, da oficina daqui. Porque eu fiquei um tempo dando aula aqui e conheci muita gente boa, conheci uma galera legal e acabei montando um grupo de trabalho, e aí surgiu a ideia de Fragmentos, que é com atores daqui. Eu estou aberto a coisas, vamos ver o que rola. E Orfeu foi meu último trabalho aqui por enquanto.

E Fragmentos, o que é?

Nesse grupo a gente tem encontros semanais, é um grupo de estudos, em cada semana nos reunimos num lugar aqui mesmo, na casa dos próprios atores. É um grupo de leitura, de estudos, dessa peça que a gente está montando, que é uma peça que fala sobre as doenças novas, contemporâneas, a gente fala de anorexia, de pedofilia, depressão… é um trabalho bem verticalizado mesmo, não é um trabalho de comédia.

Já apresentaram?

Já apresentamos, já fizemos três vezes aqui em Barueri, no teatro, e a intenção é este ano, no primeiro momento, fazer aqui de novo pra depois sair pra outros lugares. Estamos divulgando, distribuindo material pra ir pra outras cidades, mas depois de fevereiro eu vou pro Rio e só assino mesmo, deixo o trabalho pronto e aí é com os atores.