Elas tiraram do câncer uma vida nova

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As histórias de mulheres que descobriram a doença cedo, enfrentaram todo o trauma do tratamento e recomeçaram com novos amigos, novos desafios e novos sonhos

Por Verônica Falco

No primeiro andar do prédio da Secretaria de Promoção Social de Barueri, no Jardim São Pedro, o trabalho tem sido constante. Até que se entre no corredor no Núcleo de Combate ao Câncer de Mama, nada destoa de um prédio público habitual – mas somente até este ponto. Assim que as escadas terminam, surgem os primeiros sinais de que há algo realmente diferente, acolhedor.

Ali, o mês de janeiro foi todo dedicado à prevenção do câncer de mama. Desde 6 de janeiro, e até 6 de fevereiro, um grande caminhão decorado com desenhos em rosa está estacionado diante do prédio, à disposição das mulheres de Barueri. É a carreta da mamografia, cedida pelo Programa Mulheres de Peito, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, para a realização gratuita do exame.

Pela fresta de uma porta entreaberta é possível perceber itens estranhos ao ambiente: perucas, poltronas aparentemente confortáveis, algo como uma sala de recepção de um salão de belezas. Mas os cartazes impressos em papel sulfite indicam ‘mamografia’. Através de uma sequencia de grandes janelas é possível ver mulheres dentro de uma sala. Apesar de estar fechada, a porta exibe um cartaz: entre sem bater!

Lá dentro, entre as atendentes, que com paciência e atenção recebem as mulheres que estão ali para fazer a mamografia, está uma senhora aparentemente sisuda e preocupada. Mas essa impressão se dissipa assim que alguém se aproxima. Com um sorriso ela se apresenta. É Luzinete da Silva Bezerra, 72 anos, viúva, moradora do Jardim Belval, há 50 anos, e mastectomizada há mais de 20.

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Luzinete, moradora do Belval, fez mastectomia há mais de 20 anos/Fotos: Verônica Falco

Luzinete é bem conhecida ali. A intimidade e carinho com que é tratada deixa isso evidente. E há uma razão: ela teve uma das mamas retiradas em 1992 e, segundo conta, desde então sempre está envolvida em ações de conscientização sobre a importância da mamografia. “Sou voluntária sempre que posso. Acho muito importante. Descobrir o câncer de mama me fez olhar para o próximo de maneira diferente”, declara com convicção.

Ela garante que realiza o exame anualmente, e também está sempre lembrando às amigas, filhas e conhecidas de como detectar rapidamente o câncer é importante. “Aconselho para que façam o exame. Hoje estou bem, mas ainda assim não deixo de fazer a mamografia.” Além de estar ali como paciente, é clara a participação dela na causa do câncer: Luzinete foi buscar suas fotos tiradas em encontros do Núcleo de Mama. “Eu participo das ações e reuniões sobre o tema. E guardo todas as minhas fotos”, conta, orgulhosa, entre uma pergunta e outra para saber onde está o CD com as imagens do último evento. Em seguida se despede. Voltará mais tarde para pegar as recordações de mais uma participação engajada.

Entre as mulheres que vão à Secretaria de Promoção Social para participar do mutirão de mamografia, é fácil encontrar aquelas que estão em outro estágio do processo: a outra ponta da história do câncer de mama. Entre elas estão Maria Cordélia dos Santos e Edite dos Santos Ramos.

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Aos 61 anos, Maria Cordélia é uma senhora tímida, miudinha, que tem um sorriso que escapa da boca mesmo que ela tente se conter. Moradora do Mutinga, ela conta como, em 2010, descobriu o câncer de mama. “Eu já tinha feito a mamografia em março, mas sempre fiz o autoexame. Aí, um dia, durante o banho, descobri o tumor.” Isso foi em outubro do mesmo ano, e ela não tem dúvidas de que as informações que sempre teve sobre o assunto foram fundamentais. “A prevenção tem que ser feita sempre. Acredito que o autoexame ajudou a salvar minha vida.”

Mesmo consciente sobre o tema, e das possibilidades positivas em muitos casos de descoberta precoce de nódulos mamários, a reação de Cordélia foi a esperada pela maioria das mulheres diante da situação. “Na hora pensei: e agora? Comigo, não.” A resposta ela mesma se deu. “Em um mês eu já estava sendo atendida por um médico especialista. Fiz o que devia ser feito: procurei ajuda”.

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Cordélia: “Eu estou bem. Minha vida não parou ali, quando descobri o tumor”.

Nessa época Cordélia foi encaminhada para o Hospital Sírio-Libanês, onde foi realizada a biópsia. Já em casa, como não sentia dores, acabou não seguindo as orientações médicas e isso resultou numa situação grave. “Eu moro sozinha. Minha família está em Maceió, menos meu filho que é casado e tem a vida dele. Então fui fazer minhas tarefas de casa. Menina, quase morri”, lembra.

O preço do descuido foi alto. Socorrida por vizinhos, Cordélia foi medicada e na volta à consulta com o oncologista veio a notícia mais difícil, segundo ela, depois da descoberta do câncer. “O médico olhou prá mim e me perguntou o que eu tinha aprontado.” Nessa hora ela ficou sabendo que a remoção, que inicialmente seria de um quadrante da mama, agora precisaria ser da mama toda.

Cinco anos depois desses episódios e, com o apoio de amigos e como faz questão de lembrar, emocionada “de pessoas da igreja, que me acolheram de uma maneira que me deixou surpresa’, Cordélia, diante da mesma pergunta que mudou sua vida em 2010 responde segura: “Olhando para trás, eu estou bem. Minha vida não parou ali, quando descobri, no banho, o tumor”.

Ela lembra que também obteve ajuda fundamental no Núcleo de Mama. “Aqui, encontrei uma segunda família. Não me senti sozinha. Têm muitas mulheres que passam pela mesma coisa, ficam tristes, doentes, carequinhas… mas também se curam, voltam a ficar lindas e descobrem outro motivo para ser felizes.” Ela está esperando o momento para fazer a cirurgia de reconstrução de mama. “É só o que falta. Eu quero muito isso”, revela num sorriso tímido.

A moça do pão de mel

Durante toda a narrativa de Cordélia, feita numa das salas do núcleo, reservada para que as mulheres tenham um espaço mais tranquilo e aconchegante – e onde também estão as perucas que são feitas para aquelas em tratamento rádio e quimioterápico –, uma ouvinte inquieta acompanha a história de Cordélia.

Extrovertida, eloquente e com um inconfundível alto astral, Edite dos Santos Ramos, 47 anos – moradora do Jardim Califórnia – não se contém e faz uma série de interrupções durante a narrativa da amiga: ela  também tem muito para contar.

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Edite: “Eu não podia perder a esperança, não”.

Hoje ela é conhecida como ‘a moça do pão de mel’, que contam no núcleo, ‘só provando para saber’. Porém, muito antes da fama pelos doces, recomendadíssimos pelos funcionários e voluntários do Núcleo de Combate ao Câncer de Mama, Edite nem pensava que hoje estaria ali, e garante ela, “com menos cabelos brancos que antes”.

Foi em 2013, também durante um autoexame no banho, que ela percebeu algo diferente: um caroço no seio. “Era pequeno, mas não tinha como não perceber. Estava lá, sob a minha pele”, conta.  A primeira coisa que pensou foi: “comigo, não”.

Na época, apesar de ter relativamente pouca idade para estar no grupo de risco de mulheres que podem apresentar tumores mamários, Edite conta que já tinha total clareza da importância do autoexame. “Uma tia minha morreu de câncer de mama. Mas foi por total falta de informação e não procurou ajuda especializada”. E  como informação era o que não faltava, ela conta que foi imediatamente procurar fazer exames detalhados. “Não foi fácil, mas a gente tem que insistir até que tenha o diagnóstico.”

E o resultado veio. “Estava com a médica, e na sala havia outros atendimentos”, lembra. “Quando ela (médica) abriu os exames, foi catastrófico! Ela me disse: é isso mesmo, você tem câncer. É um tumor maligno. Vai ter que fazer quimio, radioterapia… Ficou aquele silêncio na sala. Ninguém respirava”, ela ri enquanto conta sobre o episódio na Santa Casa de São Paulo. Ao ser questionada sobre sua reação, Edite é direta. “Eu ouvi, fiquei pasma e pensei: vamos lá, então”.

E ela foi. Fez quimioterapia neoadjuvante, que é aplicada antes da extração do tumor para reduzi-lo e causar o menor dano estético possível à mama afetada. E como percebeu o nódulo já no início, afirma que a reação ao tratamento foi muito melhor. “Olha, não é fácil. A gente fica enjoada, sim, e nos dias do tratamento o emocional fica abalado”, relembra. Mas a positividade, tão evidente entre uma risada e outra, foi fundamental. “Eu não podia perder a esperança, não. As coisas aconteceram de uma maneira que, no dia em que eu fiz minha última sessão de quimioterapia, meu filho, que estava desempregado e à procura de emprego, arrumou trabalho no dia seguinte. Tudo no tempo certo”, afirma.

Edite conta que procurou nisso tudo a oportunidades de ver coisas boas. “Eu perdi meus cabelos, fiquei careca. E não é que quando voltaram a crescer os brancos não reapareceram?”, gargalha, enquanto toca, envaidecida, os cachos sustentados por um coque e um arco com uma rosa.

Durante todo esse processo, Edite fez um texto, intitulado O que o Câncer Tirou de Mim (clique aqui para ler). O riso fácil não deixa transparecer os momentos difíceis, onde os cuidados da filha foram essenciais e fundamentais para passar por todo o tratamento. “Eu  tive o privilégio de ser cuidada pela minha filha e por amigos que fizeram coisas por mim que nunca imaginei”, afirma. Ela lembra que o carinho, inclusive de todos os funcionários envolvidos na terapêutica do câncer. foi algo surpreendente. “A delicadeza deles, o amor legítimo com todos nós, foi uma lição.”

Hoje, já no fim do tratamento, que incluiu a reconstrução da mama que foi parcialmente mastectomizada, ela encontrou um caminho novo. Edite é alfabetizadora voluntária, dá aulas para moradores de rua que são atendidos por uma instituição na cidade. “No que diz respeito ao meu tratamento, falta passar por uma consulta, para avaliação final.” A moça do pão de mel, de humor evidente e riso fácil, não esquece: “a gente tem que acreditar e insistir”. E foi o que ela, e a agora companheira de jornada, Maria Cordélia, fizeram.

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Elas se conheceram no Núcleo de Mama, em Barueri, e a troca de experiências com outras mulheres trouxe ajuda mútua

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