“Barueri é próspera. Recurso tem, o que falta é gestão”

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Saulo Goes, do Psol, aponta a falta de planejamento como causa dos grandes problemas da cidade e se coloca como opção de renovação para o cenário político local

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Já no meio do seu primeiro mandato como vereador, Saulo Goes, 40 anos, tomou a decisão de concorrer ao cargo de prefeito. Hoje, como integrante do Psol, ele se coloca na posição de crítico à gestão da prefeitura e à hegemonia de um grupo no comando do Executivo. “Chegou o tempo de renovar o sistema político de Barueri”, afirma.  Para Saulo, a falta de planejamento é a causa dos problemas do município.  “Como pode uma cidade com R$ 2,3 bilhões de orçamento ficar uma semana sem recolher o lixo?”, pergunta, exemplificando. Por isso, ele defende que especialistas ocupem os cargos decisórios do município.

O que o levou, já no meio do primeiro mandato de vereador, a decidir concorrer à prefeitura?

A população tem cobrado isso já há muitos anos. Eu lembro que em 2008, quando nós apoiamos a campanha de um candidato a prefeito, já no início da campanha uma pesquisa apontou que 23% da população queria alternância no governo de Barueri. Tem um grupo que está aí há 33 anos e fica essa hegemonia, são sempre os mesmos. Eu acho que é importante renovar, é saudável, a cidade é quem ganha com isso. Então eu pensei bem, pensei “sabe de uma coisa, eu vou tentar a eleição”. Eu pensei comigo, conversei com as pessoas do nosso grupo, ouvi a rua, alguns comerciantes, empresários, professores, funcionalismo público de um modo geral. E concluí que chegou o tempo de renovar o sistema político da cidade, e por isso me coloquei como candidato a prefeito.

saulo-pb4E você se acha preparado para ser prefeito?

Acho. Eu mostrei para a população de um modo geral, através da nossa atuação na câmara. Sou tesoureiro da casa e só no ano passado devolvemos, em parceria com o presidente da casa, lógico, R$ 4,25 milhões de reais para os cofres públicos. Este ano, já devolvemos R$ 2 milhões. Então, a gente sabe o tempo de gastar, o tempo de segurar, o tempo de cortar, ou seja, essa questão de administração, a gente sabe como fazer. É possível, Barueri é uma cidade muito próspera, é o 15º PIB do Estado de São Paulo, então, recurso tem, o que falta é gestão. E o que vem para somar conosco é o grupo que está junto hoje. Eu tenho físicos comigo, professores, advogados, procuradores, eu tenho gente de diversos segmentos, pessoas técnicas, engenheiros, arquitetos. Ao contrário do atual governo, nós temos pessoas técnicas para colocar nas pastas, para fazer a diferença, ou seja, eu não vou governar sozinho, vai ser um grupo, vou ter secretários para isso. Então eu acredito que a gente tenha condições de fazer uma boa gestão, uma vez que nós vamos contar com pessoas técnicas em cada segmento.

Você fala muito em falta de planejamento. Pode exemplificar?

Como pode uma cidade com R$ 2,3 bilhões de orçamento, com uma Secretaria de Serviços Gerais com orçamento de R$ 170 milhões, ficar uma semana sem recolher o lixo? Em alguns bairros ficou até um pouquinho mais. Porque não estavam pagando a empresa que recebe o lixo, a prefeitura estava devendo R$ 7 milhões. Aí, você já vê o exemplo maior de falta de planejamento. Quer outro exemplo, a questão dos livros didáticos. Tem um projeto do governo federal, o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), que manda livros gratuitamente para o município, só que eles não são repassados para as escolas. Na Fieb, por exemplo, os pais gastam em média R$ 1,3 mil em livros por filho todo ano. Nós elaboramos um plano de educação de qualidade para toda a cidade, porque mão de obra qualificada nós temos, nós temos professores graduados, pós-graduados, doutores em educação, a gente tem uma nata, um grupo, que na verdade é muito forte, para dar orgulho para qualquer pai, qualquer mãe de família entregar seu filho para ser educado por essa pessoa. A gente tem esse sistema, mas esses livros não são repassados para os alunos, são incinerados, para poder fazer uma apostila de qualquer forma. Ou seja, não tem planejamento. Só agora, no fim do mandato, algumas pessoas de qualidade têm sido colocadas, como o dr. Eduardo Menezes, da Saúde, um cara que é técnico, que além de ser médico é especialista na gestão de saúde. Então, o que precisava era isso, ter pessoas técnicas que saibam administrar.


saulocor-1Quais seriam as medidas de curto prazo num eventual governo Saulo?

A primeira coisa é fazer uma auditoria no governo, para saber como está o cofre. Eu não posso falar o que dá para ser feito e o que não dá, uma vez que eu não sei o que tem no caixa do governo, não sei quanto o governo está devendo, não sei quanto tem para entrar pelos processos contra quem deve para o município. Precisa abrir uma licitação para empresas de ponta do mercado fazerem uma auditoria para levantar qual é a situação real do município, o que tem no caixa, o que está devendo, há quanto tempo está devendo.

Você vai pegar uma prefeitura com dívidas, então?

Sim. Veja, nós, a câmara, acabamos de devolver mais R$ 1 milhão para a prefeitura, com todas as contas em dia, o 13º salário provisionado e dinheiro no caixa. Porque lá não tem, com R$ 2,3 bilhões de orçamento. Falta de gestão, de planejamento.

Qual é o maior problema da cidade hoje?

Temos alguns. Falta de saneamento, e uma vez que você não tem saneamento, você não tem saúde. Nós temos uma situação precária. Estive visitando o Vale do Sol, Recanto Phrynea, e você vê esgoto a céu aberto. Você tem o maior polo de tratamento de esgoto da América Latina em Barueri, e nós temos 450 quilômetros de água encanada e apenas 250 quilômetros de esgoto. Mas se você olha na sua conta de água, você vai ver que é cobrado. Se você tiver R$ 50 de água, você vai pagar o mesmo valor de esgoto. Primeiro, não é coletado 100%, mas cobram 100% de você, e do que é coletado, apenas 17% são tratados. Então você tem um problema muito sério hoje, que é a falta de saneamento básico. Depois você tem a questão da saúde, da educação, do transporte, que é precário. Não pode a pessoa estar num ponto de madrugada e ficar uma hora, duas horas esperando. Já chegou a hora de ter uma segunda empresa de transporte coletivo na cidade. Eu costumo dizer que nas cidades prósperas, evoluídas, as pessoas deixam o carro em casa e vão trabalhar de ônibus. Mas vai fazer isso em Barueri. Além disso, temos uma das passagens mais caras do Brasil. Tem cabimento pagar R$ 3,80 do Belval até o centro? Ou da Aldeia de Barueri até o centro? Tem cabimento quem sai do Paulista até o Silveira pagar R$ 3,80? Não tem cabimento, não tem lógica. Temos um problema grave no transporte, temos 11 cidades que servem de exemplo no Brasil, basta querer e vamos ter. Barueri será referência para a Região Metropolitana.

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Outra questão que surgiu nos últimos anos é a do funcionalismo público. Como você vai tratar esse tema?

Eu vejo o funcionalismo como uma grande máquina. Nós temos que reconhecer os funcionários, são eles que fazem a grande máquina, que é a prefeitura, girar, é o funcionalismo, seja a merendeira, seja o administrador, ou o guarda de patrimônio, o guarda municipal, a assistente de maternal, são eles que formam a grande engrenagem hoje, então, precisam ser reconhecidos. Se eles têm qualidade vida, se estão recebendo bem, eles vão fazer um trabalho de qualidade. Eu não vejo o funcionalismo como um problema, vejo como uma grande solução para o município, são eles que atendem, são eles o grande cartão de visitas do município. Qualquer departamento que seja, eles que atendem a população, a maioria com um sorriso no rosto, porque gostam do que fazem. A nossa educação só não está na UTI hoje porque não temos grandes professores que têm compromisso, que amam o que fazem. A nossa saúde só não está na UTI também porque nós temos médicos e enfermeiros que amam o que fazem. Nós estamos passando por essa fase turbulenta por má gestão, por não ter um planejamento pelo atual governo, mas acredito que o funcionário é a grande engrenagem para girar essa máquina monstruosa chamada Barueri.

saulo-pb6Um problema que tem preocupado é a infraestrutura urbana. A população de Barueri continua crescendo, condomínios sendo construídos em áreas já densamente povoadas sem a devida contrapartida. O que você prevê para essa questão?

Isso é um total descaso do secretário de Planejamento. Essa obra no centro de Barueri (condomínio Inspire, na entrada do Jardim Belval) foi autorizada pelo ex-prefeito. Só que o atual governo tinha que ter pedido para a empresa uma contrapartida. Onde vão estudar as crianças que vão morar lá. As escolas que existem lá comportam? Onde será a maternal, onde será UBS? Então foi um erro grave. É a falta de planejamento, e nós temos uma Secretaria de Planejamento para isso, se fosse um cargo técnico, teria conversado com a empresa antes. Se não for tomada uma medida muito rápida, nós vamos ter um Bulevar travado, e aí vamos ter a Tancredo Neves, que vai para a Castelo Branco, travada, parada, e automaticamente a Estrada dos Romeiros também e o reflexo vai chegar na Capitão Francisco César, ou seja, foi um grande erro. Então, é preciso rever urgentemente nosso Plano Diretor, como eu disse, por pessoas técnicas, que respondam rápido que impacto isso vai gerar nos próximos dez anos.