BARUERI 70 ANOS – Os guardiães da memória

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Baruerienses se dedicam a preservar a história da cidade por fotos, vídeos, documentos e pesquisas

Largo São João Batista e estação de trem da Sorocabana, atual CPTM, no centro da cidade, na década de 1950. Prédios à direta deram lugar ao terminal/Foto: acervo Francisco Nogueira Morales

Barueri não tem tradição de preservação e disponibilização das informações sobre seu passado para as novas gerações. Por isso, ganha relevância o trabalho individual de muitos baruerienses para manter imagens e documentos relativos à história da cidade. Hoje, são pessoas como Francisco Nogueira Morales, Elias Silva e Marco Antônio da Conceição, com seus acervos e pesquisas pessoais, que mantêm viva parte significativa da memória da cidade.

Testemunha da história

Francisco Morales, o Chiquinho, 73 anos, chegou a Barueri antes da emancipação. Tinha 2 anos de idade em 1947, quando a família se mudou de Itapetininga, no interior paulista e, desde então, sempre morou na região central. É uma testemunha ocular da história de Barueri. Não apenas por viver aqui, mas porque desde jovem esteve ligado a grupos como os escoteiros ou a juventude católica. Também foi servidor municipal por 36 anos e vereador de 1969 a 1973. Também atua como o palhaço Pipoca num projeto voluntário de apresentações nas escolas municipais.

Chiquinho: a história vista por seu próprios olhos

Além disso, sempre teve paixão pelos registros históricos, como fotos, vídeos, recortes de jornal e documentos. Com o tempo, formou um acervo particular que guarda centenas de provas de importantes momentos da história da cidade. “São coisas que eu vivi”, diz ele, que para cada imagem tem uma história para contar. Como quando entregou pessoalmente o certificado de dispensa do ex-piloto Christian Fittipaldi, nos tempos em que trabalhava na Junta Militar de Barueri.

Aos poucos, Chiquinho vai informatizando tudo o que tem. São registros de eventos, festas, jogos de futebol, entre outros. Muitos vídeos já foram copiados e parte das fotos está digitalizada. “Minha intenção e digitalizar tudo”, explica. Como seu trabalho é conhecido, também recebe material de outras pessoas.

Graças a sua preocupação com a memória, ele foi membro do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural (Comphic), que presidiu entre 2013 e 2015. Dessa experiência, guarda a frustração de não ter conseguido realizar vários projetos de preservação. “Infelizmente, a questão da memória é pouco valorizada na cidade”, afirma. “Muitas de nossas ideias acabaram morrendo pelo caminho.”

O historiador da cidade

Ninguém se dedicou a estudar a história de Barueri de forma tão aprofundada como o historiador Elias Silva, graduado em história pela Unesp, com mestrado pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Nascido no Jardim Belval, ele conduziu sua carreira acadêmica no sentido de explicar cada passo da vida de Barueri, da fundação da aldeia jesuítica até os últimos anos do século 20. Esse trabalho resultou em dois livros de referência: Barueri, História Revista e Documentada, 1560-1994 e História de Barueri – Capítulos de História Municipal.

Elias: registrando a história documentada de Barueri

Um de seus achados é o suposto desmentido sobre a origem do nome da cidade, que muitos atribuem ao tupi-guarani e que significaria “flor vermelha que encanta”. A expressão está até no hino da cidade. “Não há qualquer referência a isso em nenhum documento histórico”, explica ele. “Essa versão, aliás, é bem recente, só começa a ser citada depois da emancipação.”

Ao contrário, suas pesquisas encontraram citações antigas, em textos oficiais do século 16, que se referem a um ponto do Tietê chamado de “barriere”, que vem do francês e tem o significado de barreira. Era exatamente o que havia no rio na altura da Aldeia de Barueri.

Leia entrevista em que Elias Silva conta a história da emancipação de Barueri e seus primeiros desafios: A emancipação só veio quando todos se uniram

Elias também estudou profundamente o período que antecedeu a emancipação e os anos que se seguiram. “O processo de separação de Santana de Parnaíba durou 30 anos, desde 1918 até a realização do plebiscito que garantiu a criação do município, em 1948”, explica. “Durante essas três décadas, os baruerienses fizeram várias tentativas, todas frustradas, mas isso mostra o quanto estavam determinados a conseguir seu objetivo.”

Um museu virtual

Marco Antonio da Conceição, o Marcão, é um barueriense de 54 anos que há muito tempo se dedica a resgatar e preservar imagens da história de Barueri. A página que criou no Facebook, Memórias de Barueri (Oficial), reúne milhares de imagens da cidade. O acervo tem desde fotos do século 19, passando por recortes de jornais de São Paulo de mais de cem anos atrás, até registros recentes que incluem baruerienses conhecidos, atos públicos, retratos de família e instantâneos do surgimento dos bairros da cidade.

Marcão: coletando e revelando preciosidades para a população

Um dos objetivos da página é aprofundar a ligação das pessoas com a cidade. “Boa parte da população está aqui há pouco tempo, não tem ideia de como nasceu o cresceu o bairro onde mora”, explica ele. “É importante passarmos isso para as crianças, que serão a memória no futuro. Se não fizermos isso, as coisas vão cair no esquecimento”, afirma.

Barueri cresceu muito rápido e hoje corremos o risco de perder informações importantes se não nos preocuparmos em encontrar o material valioso e disponibilizar para a população”, explica. “Infelizmente, a preservação da memória não tem recebido a atenção merecida e fica restrita a iniciativas individuais.”

Marcão atualiza o acervo diariamente. Além de receber material de colaboradores, também procura pessoas na busca de preciosidades. Depois, pesquisa em detalhe cada documento que recebe para poder enriquecer o conteúdo.

Cine Jardim, na esquina das ruas do Paço e João da Matta e Luz, no início dos anos 1960. No prédio, depois funcionariam o Sameb e a Câmara Municipal. Hoje a prefeitura está no local/Acervo Memórias de Barueri