A propaganda como manutenção do consumismo

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A partir da reflexão sobre como seria a publicidade sincera, Ingrid Teixeira discorre sobre o consumismo e imagina seu fim

Ingrid Teixeira BnR
Jovem e moradora de Barueri, Ingrid Teixeira é aspirante a escritora e tem raízes fundas na cidade carinhosamente apelidada de Feudo, tece análises com um olhar mais dinâmico e geral sobre música, literatura, cinema e expressões artísticas populares

Recentemente assisti a um filme estadunidense de 2009 chamado “The Invention of Lying”, traduzido aqui como “O Primeiro Mentiroso”. É um filme que trata de uma sociedade onde não existe mentira, todos falam sempre a verdade e, de certa forma, ninguém se chateia com ela, pelo contrário, se conforma. Em determinado momento, na apresentação desse conceito da ausência da enganação, são mostrados alguns comerciais de TV. Um deles é da Coca-Cola e diz:

Bob – personagem do filme “O Primeiro Mentiroso”de 2009

Oi, eu sou o Bob, porta-voz da Coca-Cola. Estou aqui para pedir que continuem comprando Coca-Cola. Sei que a bebem há anos, e se ainda gostam, queria lembrá-los para comprar de novo em breve. É basicamente água com açúcar mascavo. Os ingredientes não mudaram muito, então não há nada novo que eu possa contar. Mudamos um pouco a lata. As cores estão diferentes aqui e colocamos um urso para as crianças gostarem de nós. Tem muito açúcar, e como qualquer refrigerante de alta caloria, pode levar à obesidade de crianças e adultos que não tenham dietas saudáveis. É isso. É a Coca. É muito famosa. Todos a conhecem. Sou Bob. Trabalho na Coca-Cola. E peço para não pararem de comprar Coca. Só isso. (Ele dá um gole. Aparecem na tela o logo da Coca e a assinatura ‘É muito famosa’). Obrigado. ”

Ainda nessa onda de propagandas sinceras, também neste filme há uma imagem da Pepsi com o slogan “Quando não tem Coca”. Sabemos que é verdade.

Isso me suscitou a questão: e se qualquer tipo de propaganda tivesse sempre que ser sincera, sem tentar ludibriar alguém para adquirir seu produto/serviço?

Seria o fim do consumismo?

Em paralelo a isso, semana passada conheci um grupo grande de freegans que moram em Madri. Freeganismo é um lifestyle totalmente contra o consumismo que conta inclusive com o reaproveitamento de comidas, roupas, livros etc descartados no lixo. A diferença entre um freegan e um morador de rua é que o freegan está nessa vida por opção, e o morador de rua por outros motivos. Geralmente morando em ocupações de prédios abandonados através de técnicas anarquistas como o Okupa, criam uma rede de colaboração e solidariedade, mostrando que é possível viver sem ser escravo do trabalho e do dinheiro. Hortas comunitárias em terrenos baldios também são uma pratica comum.

Ainda com a ideia do filme “O Primeiro Mentiroso” latejando na mente, comecei a me perguntar: seria o marketing e a propaganda peças chaves para a manutenção do capitalismo? Uma vez que você está suscetível a estas propagandas, você está suscetível a ser enganado por elas. Mesmo que elas realmente te digam o que faz o produto delas, a forma como isso é apresentado é cruel. Os chamados “horários nobres” da TV por exemplo são um horário onde a maior parte das pessoas está com a TV ligada e relaxando depois de uma longa jornada de trabalho, ou seja, está vulnerável, facilmente influenciado por uma propaganda de móveis domésticos ou viagens, ou qualquer outra coisa que remeta a conforto familiar. E eu nem vou entrar no quesito “propaganda infantil”.

O marketing é uma estratégia cruel. Existem apenas três maneiras sensatas de lidar: deixar-se levar ao apelo consumista do capitalismo; revoltar-se (como eu), porém perceber que não há como fugir sem ser um exilado da sociedade; ou aderir ao freeganismo, admitindo todos os riscos como por exemplo, viver à margem da sociedade.

Certa vez, durante uma aula de Economia na faculdade, um professor fez uma análise animadora (porém, com ponto de vista eurocêntrico, confesso). Ele dizia a grosso modo que o primeiro sistema econômico foi o Escravismo da Antiguidade, que durou cerca de dois mil anos, teve uma crise e acabou caindo. O segundo foi o Feudalismo, na Idade Média, durou cerca de mil e quinhentos anos e acabou devido a algumas reformas. O terceiro está sendo o Capitalismo, está em vigor há pouco mais de 500 anos e já teve duas crises graves, e em uma delas, a de 1929, praticamente quebrou. A outra começou em 2009 e não acabou ainda. Eu estou na torcida pelo fim, e você?