A mulher e o sino

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Valter Klenk nos conta a história da tia que dedicou a vida à família e à fé e hoje apadrinha um dos novos sinos da igreja matriz de Barueri

 

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Isabel. Minha tia. Nasceu em 1920, no sítio do pai, no Suru, em Santana de Parnaíba. Como a maioria das famílias do local e época, foi criada dentro das regras da Igreja Católica sob a rigidez e autoridade dos pais. Assim, teve uma vida de dedicação à religião.

Quase virou freira, como a irmã mais velha, Rosália. Entretanto, não sei por qual motivo, já que pareceria muito natural seguir a vida religiosa, voltou-se para a família e cuidou dos pais e irmãos sempre que precisaram. Ficou com o pai até ele falecer em 1977, aos 89 anos. Ela era, então, uma menina de 46 anos.

Dessa época, talvez uns quatro ou cinco anos antes, vêm minhas primeiras lembranças dela. Cabelos brancos, tez morena, meio índia, voz esganiçada e um coração maior que o mundo.

Tisabel” era a tiazona de todos, pois não negava guarida a ninguém. Esteve sempre presente quando se fez necessário e, também, quando não. Qual sobrinho não se lembrará dela colocando a criança no colo, balançando as pernas e cantando o seu famoso “tuc-tutuc-tuc tutuc…” ?

Por proximidade habitacional, éramos, eu e meus irmãos, mais os primos João, Cida, Carmen e Ana Cida, os sobrinhos que mais participaram de sua vida. A Ana Cida morou com ela até se casar. Quando o fato se deu, começamos, eu e meus irmãos, a nos revezar e dormir na casa dela para que tivesse companhia.

Diariamente, ela trabalhava no armazém de meu pai, na parte da tarde, até as 18 horas. Um pouco antes das 20 horas, ela chegava para ver a novela e, sempre, se anunciava: “ó de casa!”.


Aos domingos, ela era presença garantida à mesa do almoço para comer aquele frango que minha mãe preparava e ela apreciava (e nós não aguentávamos mais).

O resto de sua rotina era dedicada à igreja. Participava de tudo, tendo sido professora de catequese e responsável pela primeira comunhão de, sabe-se lá, quantas crianças da paróquia. Ajudava na sacristia, cantava no coral, dava suporte às atividades, participava da quermesse, enfim, dedicação total.

E assim, ela foi levando a vida e a vida foi levando-a. Partiu num dia 6 de setembro, numa morte já anunciada, devido à diabetes e Alzheimer. Já não estava mais aqui quando se foi.

Teve, nesse tempo, a atenção e carinho que dispensou aos outros durante seus 86 anos.

Tempos depois, a igreja católica de Barueri foi demolida e construíram uma nova igreja. Maior e mais moderna, a igreja tocava o som de sinos eletronicamente, marcando as horas e anunciando as missas.

Recentemente, adquiriram sinos de verdade para substituir os eletrônicos. Meu pai recebeu, então, um comunicado oficial da paróquia informando que ela seria homenageada e que um dos sinos levaria o nome dela: Isabel da Silva Serra.

Ela que gostava de se anunciar, continuaria anunciando! Minha tia virara um sino.

Um dia desses, cheguei ao trabalho com uma croissant e um chá e ofereci ao meu amigo Fábio, que recusou educadamente. Lembrei de minha tia e contei a ele o que ela declamava quando oferecia algo para alguma pessoa:

“Servido do pouco que mal me chega, dado de má vontade, deus permita que não queira”

E, pensando nela, de repente, me dei conta de uma coisa. Minha tia não tinha virado um sino! Seu próprio nome já anunciava que ela sempre fora um sino: Is a bell! É um sino!

Para uma anunciadora, sempre o prévio, nunca o póstumo!