A homenagem do artista à cidade que não lhe dá valor

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Rafael Augustaitiz faz painel para os 70 anos de Barueri, apesar de não ter espaço em sua própria terra

Flores vermelhas, símbolo da cidade, enfeitam a passagem sobre a Castelo Branco/Fotos: Acervo do artista

Quem passa pela ligação da praça das Bandeiras com o Boa Vista, sob a Castelo Branco, já viu a novidade. O viaduto está coberto por um painel repleto de flores vermelhas sobre fundo amarelo. É a homenagem do artista plástico barueriense Rafael Augustaitiz aos 70 anos da cidade, que vão se completar em março.

A ideia partiu do próprio Rafael, que fez tudo sozinho, da raspagem da parede ao desenho das flores vermelhas, um dos símbolos da cidade. A prefeitura deu uma pequena colaboração: a autorização para a obra, uma ajuda de custo simbólica, um auxiliar para finalizar o trabalho e a tinta.

Rafael trabalhou sozinho

Mas isso é rotina da vida do artista. Ele é um grande exemplo do ditado que diz que “santo de casa não faz milagre”. Rafael tem uma história sólida na arte. Fora de Barueri, participou do evento pelo centenário do arquiteto Oscar Niemeyer no Memorial da América Latina, cujo acervo tem uma criação sua. Também no Memorial, integrou o grupo que produziu a mostra Etnias, conjunto de trabalhos em homenagem aos índios brasileiros. Foi personagem do jornal New York Times e de um documentário sobre grafite da Fundação Cartier, de Paris. Também ‘causou’, quando fez um protesto a favor da pichação, na Bienal Internacional de Arte de São Paulo de 2010, que repercutiu em todo o país.

Mas na sua cidade, a vida tem sido mais dura. “É muito difícil conseguir espaço aqui”, conta ele. Além de trabalhos profissionais que incluem fachadas e pinturas em muros, “para pagar os boletos”, consegue uma ou outra mostra rápida, em especial no Museu Municipal.

Missão cumprida

Durante anos trabalhou na prefeitura. Mas sofreu um acidente e acabou perdendo o emprego. Ao longo dos anos, os projetos que sugeriu foram sistematicamente rejeitados. “Até ficaram me devendo no passado, nunca recebi”, conta. “E por me deverem, me excluíram.”

A pintura do viaduto foi uma mistura de desejo com teimosia. “Quis registrar os 70 anos com a flor vermelha, que é um dos símbolos da cidade não muito usados”, explica. “Além disso, sou indião da Aldeia, onde a cidade nasceu e onde havia essas flores”, conta, referindo-se ao bairro onde cresceu.

O trabalho foi bruto. Raspar e lixar o concreto, pintar o primeiro fundo, depois, o amarelo e, enfim, uma por uma das quase 200 flores. Tudo praticamente sozinho. 

A produção de Rafael pode ser percebida pela cidade. Quem olhar com mais atenção, vai ver em vários bairros desenhos de pipas nas paredes dos prédios. Elas são uma de suas paixões, um símbolo de infância, alegria e liberdade. Também há trabalhos seus feitos a partir de pedidos de empresários e moradores, embelezando muros e fachadas. “O que eu quero é produzir e mostrar a minha arte, e poder viver minimamente disso.”

Trabalho de Augustaitiz em residência de Barueri